Editorial - Perspectivas duras
Há muito tempo o Brasil não entra em um dezembro como agora, em crise, com desemprego alto e falta de perspectivas em quase todos os setores. E se as previsões para este final de ano, época em que há mais gastos, são duras, a projeção em relação ao começo de 1999 são ainda mais graves. Fala-se em mais desemprego, em queda maior da atividade econômica, em retração ainda mais acentuada do consumo. Ao invés de um quadro de esperança e otimismo, em função da época, os brasileiros encaram uma situação desalentadora.
Um quadro destes preocupa e deveria levar a uma reflexão mais séria por parte de todos os setores. Aceitar passivamente esta situação, considerar que não há nada a fazer diante de uma crise, que, pelo que dizem, nem sequer é culpa nossa, já que é consequente de desacertos na Ásia ou na Rússia, não é apenas uma atitude inadequada. Mais do que isso, representa um modo de agir capaz de frustrar qualquer possibilidade de mudança, trazendo o desalento e a desesperança que, por si, são mais graves do que qualquer tipo de dificuldade.
É inegável que existe uma situação real de dificuldades econômicas. A realidade da falta de emprego, por exemplo, vivida por um crescente número de brasileiros, fala por si. Hoje, quem tem um trabalho não sonha mais do que em mantê-lo. Quem não o tem, vive na insegurança e na incerteza, porque não percebe iniciativas capazes de reverter este processo. E no todo se forja uma previsão negativa que representa a pior coisa que se pode colocar para um povo.
Naturalmente, não se precisa neste momento de frases feitas ou de um otimismo vazio para reverter este quadro. O que se reclama, mesmo, é uma atuação mais séria e consequente dos que podem, efetivamente, produzir mudanças positivas, a começar, sem dúvida, pelo poder público. O reconhecimento disto não é repetição daquele antigo vício nacional de culpar sempre o governo por todos os problemas e de exigir dele todas as soluções. É, isto sim, a constatação de uma realidade: é por causa dos desacertos do poder público que o Brasil está enfrentando um calamitoso déficit público, fonte maior de todas as dificuldades nacionais. Também por causa disto é que o setor produtivo se vê manietado, sem possibilidades de realizar o que pode, de se lançar a investimentos capazes de multiplicar empregos e oportunidades. Pior é que ao invés de tentar mudar isto, o governo está tratando de criar novos encargos para a iniciativa privada e o povo em geral, sem levar em conta que agindo assim vai piorar ainda mais a situação dos brasileiros.
São válidas as preocupações oficiais no sentido da aprovação das anunciadas medidas de ajuste fiscal, visando reduzir o déficit público. Ocorre que esta é apenas parte da questão. Se não houver um trabalho real no sentido de, ao mesmo tempo, dar algum tipo de estímulo à atividade produtiva, a situação só tende a se agravar. O governo que só pensa em aumentar os impostos anda na contramão dos fatos. O que efetivamente faz crescer a arrecadação é o aumento da produção, é o giro da atividade comercial que alavanca tudo o mais: só pensando em tirar, o poder público vai é acabar fazendo como aquele ganancioso personagem da fábula, que matou a galinha dos ovos de ouro pensando ficar mais rico.
Sem uma política real de incentivos ao investimento produtivo, que inclui redução nos juros de modo mais firme, mudanças concretas e uma estimulante política tributária, não só este dezembro será difícil. Todo o futuro do País poderá ser muito complicado. E, no entanto, mudar isto depende apenas de uma ótica correta por parte dos governantes.





