Editorial - Pelo desarmamento
Suécia, Brasil, África do Sul, Nova Zelândia, Eslovênia e Irlanda apresentam hoje, em Estocolmo, uma iniciativa conjunta de desarmamento nuclear, segundo anunciou o ministério sueco das Relações Exteriores. A iniciativa, cujos detalhes não foram divulgados, será apresentada pela ministra sueca Lena Hjelm-Wallen, na presença dos chanceleres dos outros cinco países envolvidos. No sábado, foi divulgada uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas condenando os testes nucleares realizados pela Índia e Paquistão e exigindo que esses países tomem medidas concretas visando evitar uma corrida armamentista. A resolução 1.172 foi adotada unanimemente pelos 15 integrantes do Conselho de Segurança, do qual Suécia, Brasil e Eslovênia participam como membros não-permamentes. O Conselho chegou a um acordo depois das difíceis negociações. O Brasil pressionou as cinco potências nucleares declaradas - Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Rússia e China, que também são membros permanentes -, para que se comprometessem novamente com o desarmamento atômico.
O mundo quer o desarmamento nuclear e o fim da corrida armamentista. No final de abril, treze milhões de assinaturas recolhidas em três meses no Japão, pela seita budista Soka Gakkai, foram apresentadas com o objetivo de pressionar as potências nucleares a desmantelarem seus arsenais antes do início dos trabalhos preparatórios da conferência de análise do Tratado de Não Proliferação (TNP), no ano 2000. O pedido foi entregue ao presidente do comitê preparatório, o polonês Eugeniusz Wyzner, por David Krieger, membro da organização Abolição 2000, que reúne mais de mil entidades antinucleares no mundo. O texto pede que sejam desconectadas e retiradas as ogivas nucleares dos lançadores. Outra reivindicação é elaborar um calendário para levar a cabo um desarmamento completo.
É importante lembrar, até para justificar o fato de se citar um abaixo-assinado feito no Japão, que aquele país foi o único, até agora, a ser atingido por explosões atômicas. Como se recorda, em agosto de 1945, os EUA, detonaram duas bombas nucleares, uma em Hiroshima, dia 6, outra em Nagasaki, dia 9, para obrigar o Japão a assinar a rendição incondicional. Mas as imagens que ficaram registradas na memória da humanidade, da população dizimada pelos efeitos devastadores dos artefatos atômicos, das cidades completamente destruídas no rastro do cogumelo letal, pelo visto ainda não foram capazes de sensibilizar todas as nações sobre o risco desta corrida suicida.
Em 96, o mundo deu o primeiro passo para o desarmamento nuclear com a assinatura pela Conferência de Desarmamento da ONU do Tratado de Proibição dos Testes Nucleares (CTBT). Mas a etapa seguinte - a proibição de produzir materiais físseis -, está bloqueada devido à oposição das cinco potências e de outros países do Terceiro Mundo, que querem que elas se comprometam seriamente a fixar um calendário preciso para eliminar arsenais. Nos últimos dias, Índia e Paquistão recolocaram o mundo em alerta com os testes que realizaram, basicamente destinados a mostrar poderio ante o rival próximo. A loucura nuclear, que provocou a corrida armamentista a partir dos anos 50, e que parecia encerrada com o fim da guerra fria, voltou a ocupar lugar entre as nações.
Se um abaixo-assinado como o do Japão fosse realizado no resto do mundo, as adesões atingiriam certamente bilhões de nomes. Os seres humanos não querem armas e, menos ainda, por mais tolos que possam ser, a destruição do planeta em que vivem. O desvario da corrida armamentista só agrada aos malucos e irresponsáveis que, de um ou de outro modo, se beneficiam dela. O mundo ficará, evidentemente, muito melhor sem as armas atômicas. Haverá, inclusive, mais recursos para se investir em vida, principalmente em países como Paquistão e Índia, que apesar de cercados pela miséria se dispõem a gastar grandes somas em projetos que visam unicamente a morte e a destruição. O protesto contra essa situação crítica, num mundo já tão conturbado, precisa ser ouvido, à luz da história e em defesa de um futuro menos sombrio para as novas gerações. Que a iniciativa conjunta de desarmamento nuclear, a ser apresentada hoje à ONU, possa ajudar as nações a encontrar o bom senso e o caminho da paz.





