Como acontece a cada quatro anos, o Brasil pára hoje por algumas horas. Começa a Copa do Mundo de Futebol, evento que mobiliza praticamente toda a população e que, até de modo mais intenso que o Carnaval, provoca uma espécie de catarse coletiva. O fato de o selecionado brasileiro, que foi campeão em 94, abrir a disputa da Copa é irrelevante. Se não fosse hoje, poderia ser amanhã ou qualquer dia. O que se sabe, o que é certo é que ao longo da disputa, ao menos enquanto a Seleção nacional estiver em campo, dia de jogo é data em que tudo se condiciona à partida. Vale recordar que, há alguns anos, um dos jogos da seleção brasileira na Copa foi disputado no feriado de Corpus Christi, o que, pelo menos, não alterou o esquema da atividade normal. Entretanto, naquele dia aconteceu algo até mais sério: foi alterado o horário de realização da tradicional procissão por causa da partida.
Este tipo de comoção, que altera inclusive o horário de manifestações religiosas (quando o Brasil joga no domingo, até a hora da missa é mudada em muitas igrejas), tem causado também críticas e controvérsias. Hoje, para permitir que a maioria possa acompanhar o jogo, os bancos alteram o horário de funcionamento, o mesmo faz o comércio, a indústria, os serviços. E há uma paradeira geral em todas as atividades. Não poucos reclamam, agora como sempre, que o país tem problemas bem mais sérios que o futebol, que a necessidade maior do Brasil é de trabalho e não de diversão e não faltam os que mostram, na ponta do lápis (ou no terminal de um computador), os milhões de reais de prejuízo provocados por esta situação.
Embora este tipo de cálculo tenha uma certa base, falta a ele o componente mais importante, o lado humano. Não é tão difícil perceber como e por que o futebol se entranhou na alma do povo brasileiro. É um esporte fácil e barato. Basta uma bola e um campo (que pode ser qualquer espaço livre). Com isto, dezenas podem brincar, esquecer os problemas. Para dar um toque ainda mais importante, o futebol acabou se tornando uma forma de revanche brasileira diante do mundo. Pois se somos de fato filhos de um país subdesenvolvido, se raramente triunfamos diante dos outros, no futebol somos mestres. Já ganhamos quatro mundiais, além de tantos outros títulos, temos centenas de gênios da bola, somos, de fato, competentes nisto. Assim, o futebol nos redime, a seleção nos eleva e nos coloca, não ao lado dos outros, mas quase sempre acima.
O que se perde em tempo de produção por causa dos jogos da Seleção, ganha-se em vibração diante dos resultados. E este cálculo também tem base científica: já se provou que sempre que há vitória do Corinthians a produção no setor industrial paulistano, no dia seguinte, aumenta. Inversamente, a derrota provoca prejuízos. O mesmo ocorre com a seleção e, no caso, com um fator mais importante: envolve praticamente todos os brasileiros. Até por causa disto, vale pouco manter lojas abertas, porque os clientes também não aparecem. Quanto à indústria, o que deixará de produzir nestas horas pode ser compensado depois. Mas se alguém for obrigado a fazer alguma coisa com a atenção voltada para o jogo que não pode ver, talvez o prejuízo seja maior, em todos os sentidos.
O Brasil pára hoje e vai parar, de novo, mais duas vezes pelo menos nas próximas semanas, para as partidas da primeira fase do mundial. Se repetir os feitos de 58, 62, 70 e 94, vai parar de novo outros dias. Horas de trabalho serão perdidas, o movimento do comércio naqueles horários vai cair. Mas há compensações inclusive pelos negócios paralelos que a Copa produz e que são muito importantes. E pela união que produz e que dá aos brasileiros um senso de cidadania que não se vê em muitas ocasiões.

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