‘‘Eu pensei, pensei e tinha razões para isso, que a violência tivesse sido banida do Continente, como método de atuação política’’. O desabafo do secretário brasileiro de Direitos Humanos, José Gregori, a respeito do assassinato do vice-presidente paraguaio, Luis Maria Arga¤a, consubstancia a reação diante do atentado ocorrido em Assunção, algo que, se pensava, não se repetiria mais nesta sofrida América Latina. O Paraguai, como de resto praticamente todos os demais países do Continente, tem uma história marcada por atentados, golpes, guerras civis, autoritarismo. Só nos últimos anos é que, aos poucos - e em meio ainda a muitos contratempos e temores -, o totalitarismo foi perdendo terreno, com o fim das ditaduras e a retomada do processo democrático. Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, membros do Mercosul, parceiros de uma nova e importante arrancada visando a formação de um bloco capaz de representar a base para uma diferente etapa na vida de seus povos, todos enfrentaram graves crises políticas em anos recentes. E todos conseguiram, não sem enormes dificuldades, recriar um panorama democrático, produzindo um caminho diferente voltado para a solução dos anseios das respectivas populações, fugindo das soluções militares ou arbitrárias.
O Paraguai só saiu da ditadura há dez anos. Depois de décadas no poder, o general Alfredo Stroessner só foi apeado do governo em 1989. A partir de então, iniciou-se aquela difícil caminhada pelas trilhas da democracia, com as concessões costumeiras: o primeiro presidente pós-Stroessner foi um militar, os políticos que dominam a cena política têm uma história ligada à era ditatorial. É quase como aconteceu no Brasil, em 1985, quando assumiu a presidência, na redemocratização, um ex-dirigente do partido que dava apoio à ditadura. Superar os vícios de um período totalitário é sempre complicado, os males de uma ditadura vão além do que se possa imaginar, os tiranos estrangulam os países que dominam, castram as lideranças emergentes, destroem a oposição. Quando caem, não existe base para uma real alteração de tal modo que os que assumem acabam tendo, quase sempre, um passado ligado à repressão.
Depois da posse de um presidente civil, porém, a idéia era a de que as coisas poderiam se encaminhar de modo diferente. Só que o Paraguai enfrentou o desafio de outro militar, o general Lino Oviedo. O militar tinha o que contar: participou da luta contra Stroessner. E queria ser presidente, democraticamente eleito. O então presidente Wasmosy não concordou. E acabou conseguindo afastar Oviedo da disputa. Só não teve sucesso total porque o eleito acabou sendo o sr. Raul Cubas, intimamente ligado ao general. A resultante desta situação é a que se observou: Cubas, talvez algo açodadamente, resolveu libertar seu mentor, Oviedo, preso e condenado durante o período Wasmosy. Provocou reações fortes, seu mandato estava e ainda está ameaçado. Pode-se até considerar que só não houve algum tipo de golpe no Paraguai devido à pressão externa, à exigência do Mercosul, à postura dos Estados Unidos.
Golpe não aconteceu. Mas, inesperadamente, ocorre o atentado político, o crime violento. E o Paraguai passa a viver um clima de instabilidade perigosa e até certo ponto assustadora. Se a situação no país já era incerta, com as pressões contra o presidente, o assassinato do vice, inimigo de Cubas, cria uma realidade ainda mais preocupante. Para o governo, só uma rápida investigação, a identificação dos responsáveis (desde que não estejam ligados a Cubas) e sua punição podem reduzir as tensões. Neste momento, é uma das únicas esperanças para Raul Cubas e o Paraguai.

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