Paradeira oficial
Houve uma época em que se dizia que o Brasil parava de funcionar nos dias que antecediam o Natal e só voltava à ativa depois do Carnaval. Na esfera governamental, para que o Congresso trabalhe no período entre um e outro evento é sempre necessária uma ‘convocação extraordinária’, o que vale também para os Legislativos estaduais, com todas as despesas disto decorrentes e sem muita garantia de sucesso. Nos últimos anos, os brasileiros mudaram o modo de ser e ver as coisas. Aquela imagem do malandro esperto, que só trabalha em última instância, foi sendo substituída. O crescimento da consciência de cidadania ajudou nesta mudança de tal modo que atualmente o brasileiro, de modo geral, quer trabalhar. O problema, para muitos, é que o trabalho está difícil, o desemprego persiste.
Infelizmente, porém, na área oficial esta mudança não ocorreu. Ao contrário. Neste começo de penúltino mês do ano, o que se tem já é uma antecipação do descanso oficial. Levando em conta o feriado de hoje, já se preparou uma pauta bem suave de trabalho na Câmara Federal, até porque a programação de muitas coisas ali simplesmente cairia no vazio. A experiência do último feriado ocorrido numa terça-feira, o de 12 de outubro, já ensinou: a pauta da Câmara Federal naquela semana era extensa e não foi cumprida. Deste modo, realisticamente, os dirigentes da Casa resolveram reduzir o serviço. E como dentro de duas semanas haverá outro feriado, é possível que a pauta nos próximos dias siga o mesmo ritmo. Daí, logo acaba novembro e, com o início de dezembro, já se vislumbra o Natal e o fim do ano com a grande festa da entrada de 2000. Qualquer atividade objetiva só depois do Carnaval ou, naturalmente, com alguma convocação extraordinária, que renderá um ganho não desprezível para os representantes do povo.
Repetir que esta situação é lamentável não retrata bem a questão. O Brasil vem perdendo tempo há muito. Este espírito de ‘deixar para depois o que deveria ser feito agora’, esta idéia de ‘empurrar os problemas com a barriga’, até mesmo aquela afirmativa segundo a qual ‘Deus é brasileiro’, o que significa que não precisamos nos esforçar muito, porque o povo já diz que ‘mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga’, tudo isto acaba dando como resultado esta situação de desesperança que começa a atingir, outra vez, o povo brasileiro. Todo o esforço realizado nos últimos anos, os sacrifícios assumidos pela população com intenso patriotismo, nada parece sensibilizar os que deveriam ser os condutores do povo para um destino melhor.
O fato positivo, numa relação que dá a impressão de ser totalmente negativa e de não abrir esperanças, é que o cidadão brasileiro está cada vez mais consciente dos abusos que são cometidos, principalmente pelos que elege para governar, como também pela percepção de sua própria força. Acontecimentos recentes da vida política brasileira são bem indicativos. Foi a população, ainda que não totalmente perceptiva de sua força, quem solapou primeiro as bases da ditadura, impondo derrotas sucessivas ao chamado ‘partido do Governo’, fortalecendo a oposição de modo a proporcionar a virada de 1985. Foi este povo quem, nas ruas, assumiu a luta pelas diretas e pelo seu próprio destino. É este brasileiro quem, cada vez mais consciente de seu poder, pode mudar esta situação, exigindo dos seus representantes uma atitude condizente com as necessidades nacionais. Do mesmo modo, é este cidadão quem poderá, caso persista esta situação, modificá-la como o fez nos anos da ditadura, pelo voto de consciência, afastando os mentirosos e abusados e buscando representantes que tenham a mesma consciência sobre o papel que devem desempenhar na vida do País.

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