Quem quer que tome conhecimento das denúncias sobre a corrupção que campeia no município de São Paulo (o mais rico do País), fica com a impressão de que a figura de retórica sobre o ‘mar de lama’ se aplica literalmente ao loteamento que vereadores e outras figuras fizeram com a capital paulista. É tão grande a roubalheira, são de tal monta os desmandos que, aparentemente, a opinião pública não consegue acompanhar ou entender o que ocorre. Pois o mais grave nisso é precisamente essa falta de reação popular: o que se percebe das denúncias é que se implantou na paulicéia um verdadeiro império criminoso, que atingiu tal nível que é até difícil de acreditar. E embora haja investigações e se indique que algumas cabeças devem rolar, a impressão é que a população em geral está desligada, aceitando quase passivamente uma realidade que deveria, desde logo, provocar reação de indignação, similar à ocorrida quando a pressão pública acabou por precipitar a queda do então presidente Fernando Collor de Mello.
A consciência de cidadania do povo brasileiro cresceu muito nos últimos anos. A estabilidade da economia, sem dúvida, ajudou bastante. Na época da balbúrdia econômica, era até difícil perceber o que ocorria. E o próprio povo acabou aderindo à política do ‘salve-se quem puder’, com todos querendo ‘levar vantagem’. Muita coisa mudou, não a partir da redemocratização - que foi uma etapa política - mas quando começaram a surgir movimentos em defesa do consumidor, ponto de partida para a consciência de cidadania que se tornou cada vez mais forte e que serviu, inclusive, como apoio para o sucesso do plano de estabilização, mesmo sem a implementação das reformas estruturais pelo governo.
O que está faltando, porém, para completar esse quadro é que essa conscientização atinja também a área pública. Aceitar passivamente os crimes que estão sendo cometidos em São Paulo, por exemplo, pelos que foram eleitos para governar o município, é algo assustador. Perceber que ainda é grande o total dos que não reagem porque acreditam que nada há a fazer e que as coisas são assim mesmo é preocupante. Falta, nesse processo de cidadania, a percepção mais ampla do povo sobre seu real poder. O que se revelou sobre o loteamento criminoso que alguns verdadeiros mafiosos fizeram no município de São Paulo deve, seguramente, ser apenas um pálido retrato do que acontece em muitos outros pontos do País. Um dos mais flagrantes exemplos de abuso no setor público é o nepotismo, que viceja no Executivo, no Legislativo e no Judiciário; na União, nos Estados e nos municípios. A república brasileira acabou criando uma nova casta de aristocratas, os que se encastelam no poder e o usam para benefício próprio, saqueando o erário público sem pudor e sem temor de qualquer punição.
O que está faltando é a retomada da indignação por parte do povo diante dos assaltos que continuam a ser cometidos por pessoas que receberam do eleitor uma autoridade que agora usam em benefício próprio. A filosofia do Jeca Tatu, aquele personagem lobatiano que não resistia a nada, porque ‘não paga a pena’, já deveria estar afastada da vida nacional. Depois da redemocratização, os brasileiros começaram a ser informados - graças principalmente à liberdade de imprensa - dos assaltos que eram cometidos por parlamentares e outras autoridades com a maior desfaçatez. Houve processos, mandatos cassados, até mesmo algumas prisões. Um presidente caiu, determinadas pessoas caíram em desgraça. Mas isso ainda não resolveu o problema. Estão aí os achaques em São Paulo, tornada feudo de ladrões e aproveitadores. Está na hora de o povo voltar a se indignar e exigir cadeia para os corruptos, punição para os que se locupletam com a miséria da população.

mockup