Os povos e a globalização
O relatório do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) 1999, divulgado pelo representante no Brasil do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), da ONU, Walter Franco, já provocou enorme reação interna por colocar o Brasil na 79ª posição entre os países do mundo, 17 posições abaixo da última pesquisa, realizada em 95. Com isto, o Brasil sai do grupo de alto desenvolvimento humano para ocupar lugar entre os países de desenvolvimento médio. Mas Franco fez questão de ressaltar que todos os indicadores usados na nova modalidade de cálculo do IDH revelam que o Brasil melhorou. O problema é que o novo critério de classificação alterou alguns itens em relação ao método de avaliação anterior, tornando impossível qualquer tipo de comparação com os dados divulgados no passado. O presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Roberto Martins, que participou da divulgação do índice, chegou a admitir que a nova modalidade de cálculo do IDH provoca um efeito complicado. Ele destacou, no entanto, que nos quatro indicadores avaliados (expectativa de vida, alfabetização, taxa de matrícula nos três níveis de ensino e renda), o Brasil melhorou. A mudança de metodologia de cálculo, no entanto, rebaixou o país.
Este, porém, não é o fator mais importante enfocado no trabalho. O que se destaca ali, principalmente, é que a globalização está aumentando a diferença entre os que dela se beneficiam e uma grande maioria de excluídos, e está criando uma insegurança multidimensional. Essa análise da riqueza e pobreza humanas, elaborada às vésperas do ano 2000, traça um paralelo da aceleração da globalização, em todos os setores, e a lentidão da reação ou iniciativa dos poderes econômicos e políticos ante as consequências sobre o aspecto humano. O aumento da desigualdade é flagrante: entre os 5% dos mais ricos e os 5% dos mais pobres do planeta, a diferença de renda chega hoje a 74 a 1, quando era de 60 a 1, em 1990. Mais de 80 países têm renda per capita inferiores hoje em relação há dez anos.
O PNUD denuncia uma polarização grotesca e perigosa entre os indivíduos e países que se beneficiam do sistema e os que são obrigados a sofrer passivamente seus efeitos, sugerindo que é preciso reescrever as regras da globalização. E lembra que o conceito abrange aspectos variados, positivos e negativos, como os entorpecentes, a lavagem de dinheiro, a Internet, a cultura pop, a colaboração das polícias nacionais dentro da Interpol, as campanhas de imunização ou a expansão da Aids. A expansão da criminalidade é apontada no documento como um dos fatos mais preocupantes. Segundo o estudo, o crime movimenta hoje no mundo entre 2% e 5% do PIB mundial. O volume de recursos gerado pelo crime organizado é estimado em 1,5 bilhão de dólares.
O informe do PNUD é o principal instrumento de referência do sistema da ONU em termos de desenvolvimento, o que dá ao documento uma dimensão muito séria. Neste momento de intensas transformações, esta avaliação sobre os efeitos positivos e negativos da globalização representa um fator importante como base para a realização de um trabalho amplo e sério, visando melhorar a situação da vida dos seres humanos no planeta como um todo. A revelação sobre a disparidade que aumenta entre os ricos e pobres, evidenciando que a distribuição de renda no mundo se tornou pior na última década, deve ser um dos pontos focais na busca de soluções para fazer com que a globalização se torne um benefício para todos os habitantes do planeta, desafio enorme que não pode ser deixado de lado, em nome da justiça.

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