O Brasil divide opiniões. Dois ‘palpiteiros’, como os chamou o presidente Fernando Henrique Cardoso, apostam que vamos afundar numa nova crise asiática que se avizinha, fora o fato de que as exportações dos tigres ficaram 30% mais baratas com a desvalorização das moedas asiáticas. Os dois são os economistas Keneth Courtis, do Deutsche Bank da Ásia, e Rudiger Dornbusch, do Instituto de Tecnologia de Massachussetts. Mas, do outro lado da mesa posta-se o Instituto de Finanças Internacionais, de Washington, e o banqueiro William Rhodes, vice-presidente do City Corp. Para eles, as economias latino-americanas serão afetadas, mas não entrarão em crise por isso.
Os argumentos dos dois últimos são, resumidamente, os seguintes: as economias da região estão muito mais fortes do que no passado, o sistema financeiro está sólido, depois da quebra do México em 1995, e os governos aprenderam a agir antes que seja tarde demais. Exemplo: as medidas tomadas pelo Brasil em outubro e as tomadas pela Argentina para fortalecer o peso, quando nem se falava em crise asiática.
Dos países latino-americanos, o Chile é o que ficará em pior situação, pois suas exportações para a Ásia são bem maiores que as de seus vizinhos continentais. Quem está mais perto da Ásia, e não só na distância, corre mais perigo. Em compensação, quando a Ásia se recuperar o inverso é mais que verdadeiro. Enquanto isso não acontecer, o Chile terá de procurar outros mercados para seus produtos.
Mas os argumentos dos ‘palpiteiros’ não são de se jogar fora. O presidente brasileiro tinha que dizer o que disse, em defesa de seu país, mas Courtis e Dornsbusch, que são dois importantes economistas, puseram o dedo na ferida. Em resumo: se o Brasil não fizer reformas em suas estruturas, tudo o que foi feito até agora terá sido meramente decorativo, inclusive o Plano Real. Eles têm razão.
Nenhum plano econômico e nenhuma economia pode se sustentar com juros primários de 20%, 30%, 40% ao ano. E até quatro meses atrás estávamos há três anos no patamar de 20%, depois de termos batido em 30%! Agora, ficamos quatro meses entre 40% e 36%. E tudo porque ficamos comendo moscas durante três anos pelo puro prazer de não fazer nada para ver como é que fica. Só quando as coisas apertaram começamos a votar alguma coisa do que realmente interessa.
Economicamente falando, o Plano Real não é nada. É tão somente um raio de genialidade contábil que fulminou a inflação com um artifício monetário conjugado a uma alta alucinada dos juros. Isto fez o capital internacional improdutivo voar para cá como abelhas atrás das flores. Nossas reservas não aumentaram de 30 para 60 bilhões de dólares só porque estamos em relativa estabilidade.
O Plano Real é um pára-quedas que proporciona uma descida segura para a verdadeira estabilidade, se soubermos fazer o que tem de ser feito. Sem as reformas, é um pára-quedas furado. E nossas flores, pelas quais pagamos uma fortuna, nos levarão à bancarrota.

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