Um dos perigos da reeleição, entre tantos, é o do erro na leitura do resultado por parte do político que recebeu nas urnas um novo mandato. Num primeiro momento, a primeira conclusão que salta aos olhos é uma só: se o candidato ganhou de novo é porque fez tudo certo, o eleitor está satisfeito com os rumos adotados e, portanto, o negócio é continuar a fazer o mesmo. Em certo sentido, a idéia parece correta. Entretanto, as coisas podem não ser assim.
O eleitor vota sob muitas motivações. Há quatro anos, o sr. Fernando Henrique Cardoso foi eleito presidente no primeiro turno, em pleito memorável marcado pelo reconhecimento do eleitor ao plano de estabilização da economia, que teve o candidato escolhido como mentor, ele que foi ministro da Fazenda do seu antecessor, o presidente Itamar Franco. Agora, a possibilidade de se considerar que a reeleição, outra vez no primeiro turno, constitui um aval do eleitor ao que foi feito e, portanto, o entendimento de que o projeto deve continuar, é um risco. O Brasil, assim como o mundo, vive uma situação diferente da existente há quatro anos. Naquela época, o desafio - vitorioso - foi o de se conter a aparentemente invencível espiral inflacionária, restaurando a credibilidade pública e a confiança na moeda. Hoje, há novos e mais sérios problemas.
Vale até rememorar alguns acontecimentos recentes, que marcaram a campanha presidencial. Desde que se aprovou a emenda da reeleição, o presidente Fernando Henrique surgia com o mais absoluto favoritismo. O país vinha bem, a economia estável, a inflação sob controle, as perspectivas pareciam as mais positivas. Daí, começaram os problemas. Houve a denúncia sobre o drama da fome no Nordeste, com a acusação paralela de falta de ação do governo para resolver o problema. FHC balançou um pouco. Recuperou-se rapidamente, determinando um trabalho de atendimento aos flagelados, fazendo o que devia ter feito antes. Ficou marcado, mas superou o obstáculo.
Veio então, e bem recentemente, a grande crise econômica mundial, provocando rumores sobre as consequências que isto teria para o Brasil. A possibilidade de haver por aqui uma debacle como a que aconteceu primeiro na Ásia e depois na Rússia foi (e ainda tem sido) considerada seriamente, produzindo muito medo entre os brasileiros. A primeira resposta consciente diante desta situação foi uma ligeira queda do presidente nas pesquisas de intenção de voto. Logo, porém, FHC voltou a se firmar e a subir. A impressão de que um choque econômico poderia derrubar a candidatura do presidente não se confirmou. E é diante desta situação e da resposta pública que o presidente reeleito precisa se colocar para interpretar adequadamente o resultado das urnas de domingo.
Sem dúvida, boa parte da reeleição presidencial decorre do sucesso do plano de estabilização. Entretanto, parcela igualmente apreciável deve ser creditada ao medo produzido pela crise de fora que ameaça explodir aqui dentro. A oscilação da candidatura FHC, quando dos rumores sobre possíveis reflexos das dificuldades externas no Brasil, refluiu a partir do momento em que se percebeu que mudar o comando em meio a turbulências poderia ser errado e até perigoso. De repente, Fernando Henrique Cardoso não era mais o condutor da nave em mares tranquilos, mas enfrentava procelas perigosas. É certo que escolhê-lo para enfrentar estas dificuldades denota confiança. Mas também pode oferecer a impressão de que muitos se voltaram para ele por medo de buscar qualquer outra opção. E é a percepção disto que se espera do presidente para organizar e planejar o novo mandato que ganhou.

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