Editorial - Os homens e as instituições
Na semana em que se rememora o martírio de Joaquim José da Silva Xaxier e a morte chocante e dolorosa de Tancredo Neves, o Brasil perde, de uma vez, dois políticos que se encontravam verdadeiramente no centro dos acontecimentos nacionais. O ministro Sérgio Motta, articulador político do Governo, verdadeiro trator a abrir e facilitar o caminho para seu amigo presidente, e, dois dias depois, o deputado Luís Eduardo Magalhães, jovem e habilidoso líder que vinha exercendo importante trabalho na Câmara, onde tinha livre trânsito em todas as correntes políticas e ideológicas.
Inegavelmente, as duas mortes vão trazer dificuldades para o Governo. Ambos eram expoentes na linha de frente das batalhas mais sérias do Executivo para votar projetos e reformas estruturais. E embora um senador tenha assinalado que a melhor homenagem ao deputado Luís Eduardo do Congresso deve ser a conclusão da votação das reformas, um parlamentar já adiantou que a Câmara dificilmente terá condições de trabalhar, com este baque emocional. Foi além, dizendo que a morte de Luís Eduardo pode representar o fim da atividade legislativa do Congresso este ano: quando passar o trauma, os deputados e senadores estarão envolvidos em suas campanhas eleitorais.
Ainda assim, estes acontecimentos talvez não prejudiquem o projeto político de curto prazo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Se o Congresso não completar nem as reformas já bem encaminhadas, ele terá o bode expiatório perfeito para se queixar do Legislativo. Quanto à reeleição, a não ser que ocorram fatos incontroláveis, mesmo sem a presença do seu fiel escudeiro Sérgio Motta, o presidente a tem praticamente assegurada. O que as duas mortes colocam em evidência é a fatuidade dos políticos, que uma vez no poder são tentados a se considerar salvadores da pátria, predestinados, os únicos capazes de resolver os problemas do País. Mas eles morrem e o País tem que continuar.
O falecido ministro Sérgio Motta tinha um projeto muito maior que o de ajudar a reeleger o presidente Fernando Henrique Cardoso. Em sua mente, o PSDB deveria manter o poder por duas décadas, já se cogitando inclusive de tentar de novo uma emenda parlamentarista que permitiria ao atual presidente seguir no comando como primeiro-ministro. Aliás, não se deve descartar a idéia de mais uma reeleição, como querem os presidentes da Argentina e do Peru. É este tipo de ilusão personalista que recebe um duro golpe com a morte do pretendente. Ao atingir dois baluartes do Governo FHC, a morte lembra o destino de todos os homens. Pois o ser humano é finito. A Nação, o país, é que é perene. Os políticos trabalham (ou deveriam trabalhar) em função desta perenidade, sabendo que um dia serão retirados deste mundo, sem aviso prévio.
Por coincidência, Luís Eduardo Magalhães foi o grande artífice da aprovação da emenda que permite a reeleição dos chefes de Executivo. Sua morte e a do ministro Sérgio Motta provocam justos sentimentos de dor entre os que os estimavam, mas ao mesmo tempo recolocam no lugar a definição básica da aventura humana: os homens passam, as instituições ficam e o trabalho dos homens públicos deve ser bom o bastante para servir ao presente, ao futuro e à posteridade.





