Os gastos da Saúde
A filosofia empresarial norte-americana dá grande destaque à publicidade. É antológica a lição de um empresário a uma pessoa que queria lançar um novo produto no mercado: ‘‘Aplique 95% dos recursos em publicidade e 5% no produto’’, foi a orientação dada. Excessos à parte, fica bem clara a idéia de que divulgar é importante, necessário mesmo para quem quer entrar no mercado e também manter-se nele. E esta idéia vai além até do comércio, passando por todos os setores da vida, inclusive o político. Homem público que aspira a um cargo eletivo precisa divulgar o ‘produto’, no caso ele mesmo. E político eleito ou no exercício de algum cargo público de destaque, que afinal sempre tem outras pretensões, quer se eleger (ou reeleger), aspira novos horizontes, também precisa divulgar o que faz, manter-se em evidência para que o eleitor lembre dele no momento crucial da urna.
O problema surge quando se perdem as perspectivas e se começa a agir de modo quase irresponsável, isto é, quando o político passa a investir mais na publicidade do que no trabalho. Invertem-se as prioridades e o trabalho correto fica em segundo plano, valendo mais a ‘propaganda’. Tem acontecido muito, em praticamente todos os setores da vida pública. É uma inversão, entretanto, danosa que pode até produzir resultados por algum tempo, mas que se revela tremendamente negativa para o povo. E no fim (até porque o eleitor, embora pareça, não é cego ou ignorante), aquele que investe em propagar o que pretensamente faz, esquecendo-se do trabalho, acaba sendo defenestrado nas urnas. Como, porém, muitas vezes este processo é demorado, o prejuízo para a população até que termine este tipo de mentira institucional é grande.
Com uma brilhante carreira privada e pública, o senador José Serra foi levado ao Ministério da Saúde, sem dúvida uma das mais difíceis Pastas num país em que há milhões de subnutridos, o saneamento é insuficiente e a doença faz parte da realidade de multidões. Para complicar, as verbas são insuficientes. Não por outro motivo, um ex-ocupante do Ministério, o competente médico Adib Jatene, quase se acabou para conseguir recursos, sendo o responsável pela criação do ‘imposto do cheque’, que deveria fornecer mais verbas para que aquele Ministério atendesse melhor as necessidades dos brasileiros. Apesar disto, porém, os recursos continuam a ser poucos face às necessidades. O pior, porém, é a revelação de que ponderável parte do orçamento posto à disposição do Ministério da Saúde vem sendo usado para ‘divulgação’. Segundo revelações do Sistema de Acompanhamento Financeiro (Siafi), do governo, o Ministério do sr. Serra gastou, só neste ano, em torno de 23 milhões de reais com agências de publicidade e mais 2 milhões com assessorias. A divulgação está boa. A saúde, porém, não está.
Pior é que é fácil para a população perceber as distorções entre o que se divulga e a realidade. Hospitais não recebem no prazo adequado os parcos recursos em pagamento dos serviços prestados. E o valor destinado pelo SUS ao atendimento é, muitas vezes, inferior às necessidades, o que leva casas de saúde ao descrendeciamento ou à falência. As filas de doentes em hospitais públicos, por toda parte, o quadro estarrecedor de abandono de muitos estabelecimentos que não têm o suficiente para manter seus equipamentos, todo um quadro desalentador e doloroso se choca com este festival de gastos para ‘divulgação’ de realizações no setor. Desperdício verdadeiramente criminoso, que prejudica o povo e ameaça a própria imagem do ministro, que sem dúvida melhor faria se usasse 95% dos meios para atender a população, com o que talvez nem precisasse de agências de publicidade para mostrar sua competência de homem público.

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