Entre um governo forte ao lado de uma imprensa fraca, e um governo fraco junto a uma imprensa forte, a opção pela segunda hipótese é a única aceitável. Este ensinamento é de um dos pais da República dos Estados Unidos da América, Thomas Jefferson, que inclusive se tornou o quarto presidente daquele país e define bem a percepção do papel da imprensa livre na verdadeira consecução de um governo que, como frisou Abraham Lincoln, seja do povo, pelo povo e para o povo. Infelizmente, porém, não poucas vezes, diante de dificuldades que surgem, muitos governantes - mesmo democráticos - se mostram revoltados com a imprensa. Do mesmo modo, com muita frequência, também tentam fazer da imprensa a responsável pelos eventos negativos que enfrentam.
Diante do verdadeiro cataclismo provocado pela revelação pela imprensa das conversações entre altas personalidades do governo, obtidas através de ilegais grampos telefônicos, o presidente Fernando Henrique Cardoso não resistiu à busca da solução mais fácil, criticando a mídia nacional. Claro, e até com um enfoque tático natural, o presidente fez ver que não quer uma censura, mas insistiu na tese segundo a qual era necessária uma regulamentação sobre o que pode e o que não pode ser divulgado. Se isto não é censura, seguramente houve mudanças não reveladas no conceito desta instituição que faz parte de qualquer tipo de regime totalitário.
A divulgação por algumas revistas e por emissoras de televisão de trechos das fitas obtidas ilegalmente, com conversas entre o ex-ministro das Comunicações e o ex-presidente do BNDES, poderia, eventualmente, ser debatida no que tange à questão ética envolvida. De fato, houve aí a revelação de fatos obtidos criminosamente. Todavia, tem-se no caso fatos relevantes e de importância. O modo irresponsável como questões de tal natureza foram tratadas, conforme o teor da conversa, por si só constitui um motivo para a divulgação, dentro do espírito relativo ao papel que a mídia deve representar em um país democrático e civilizado.
A imprensa não inventa notícias. Apenas as divulga. No caso específico poder-se-ia contestar a validade ética da divulgação das fitas se os grampos tivessem sido feitos pelos próprios órgãos que publicaram as conversações. Não é aceitável, sob nenhum aspecto, a obtenção de informações por via ilegal ou criminosa. Não é, porém, este o caso. As redações das revistas, jornais e emissoras de TV receberam a informação e, conforme faculta a lei, têm o direito de não revelar suas fontes. Esta questão, aliás, é fundamental: a proteção da fonte constitui elemento básico para o exercício da liberdade de informação.
O que se tem, assim, são fatos reais que a imprensa divulgou, sem se arrogar, como pretendeu o presidente em seu desabafo, o papel de juiz das instituições. E eram fatos revoltantes e sérios, como fica claro diante das consequências: os principais envolvidos acabaram se demitindo, até porque, por maior que seja sua indiscutida competência, revelaram ‘pés de barro’. A escuta é ilegal, mas certas manobras reveladas por ela não parecem também muito éticas, ainda mais em um processo da magnitude da privatização da telefonia.
O Brasil, depois da redemocratização, deparou com uma dura realidade. Nos primeiros anos em seguida à volta da democracia foram revelados muitos escândalos envolvendo figuras públicas. Não que durante a ditadura isto não acontecesse; é que na época a imprensa estava amordaçada. Libertada, realiza seu papel, não como juiz, mas como fiscal do único detentor do poder na democracia, que é o povo. E que só com uma imprensa livre fica sabendo do que fazem em seu nome.

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