Editorial - Os desafios do Brasil
O turbilhão econômico vem exigindo um imenso esforço do governo, e em especial do presidente Fernando Henrique Cardoso, para que o País consiga se afastar do abismo e superar a forte crise que hoje enfrenta. As dificuldades financeira e econômica há muito ultrapassaram o limite da tolerância e, se fatos novos não vierem a inverter o ritmo de sangria de nossas reservas e a tendência de estagnação ou, pior, de retração da produção nacional, a perspectiva é de um labirinto ainda mais sombrio, comprometendo decisivamente o plano de estabilidade.
A saída súbita do presidente do Banco Central, Francisco Lopes, e sua substituição por Armínio Fraga Neto cerca de três semanas após a indicação do primeiro para o cargo, revela o quanto o presidente e seus homens de confiança na área econômica estão com problemas para refrear a crise. O País, que navegava com dificuldades em meio ao furacão provocado inicialmente pela crise asiática, viu-se perigosamente arrastado pelos vagalhões da derrocada russa e agora tornou-se o epicentro de mais um terremoto econômico mundial.
São as consequências da globalização mundial, das quais não poderíamos escapar, dirão os áulicos; são os efeitos da submissão de um presidente e seu governo às diretrizes do Fundo Monetário Internacional (FMI), reagirão os eternos opositores do governo - de qualquer governo. Seja qual for a postura ideológica diante da atual crise por que passamos, não faltou quem alertasse, invocando princípios elementares de economia, o presidente e seus assessores que a viagem rumo à tão esperada e necessária estabilidade econômica exigia correção de rumos.
E estas correções, infelizmente, não foram feitas em tempo hábil. O Pacote 51, como ficou conhecido o conjunto de medidas anunciadas logo após a crise dos tigres asiáticos, no final de 97, trouxe um aumento substancial da carga tributária e previa cortes significativos nas despesas do governo. Os cortes ficaram apenas nas intenções. Com a crise russa, em agosto do ano passado - quando a credibilidade interna e externa do governo estava abalada por causa do descumprimento das metas de redução dos gastos públicos - nossa vulnerabilidade ficou exposta e, apesar de toda a pressa com que se conduziu a aprovação das medidas de ajuste fiscal, não foi mais possível desmentir aqueles que previam que, depois dos russos, seríamos nós a bola da vez.
Para os opositores do Planalto, o Brasil hoje está de joelhos diante de diretrizes recessivas e impositivas do FMI, por mais que o presidente FHC tenha dito ontem que a nomeção do novo presidente do BC não tenha sido nem sugerida e nem combinada com o Fundo. A medida, ainda que bem recebida no meio empresarial, abre evidentemente um imenso flanco para que os críticos vejam em tantas mudanças num prazo tão curto a falta de um ação estratégica que evite a derrocada do real. A credibilidade do governo é colocada à prova dia a dia e só será recuperada se, além do mercado (esta entidade sem rosto que tudo pode), a população, que no fim da linha arca com os pesados ônus da crise, também passar a acreditar que a inflação não vai voltar, que a recessão é um risco distante e que o desenvolvimento será retomado.
FHC, homem bem-intencionado - e é preciso reconhecer-lhe este mérito - desperdiçou tempo e dinheiro preciosíssimos para conseguir se reeleger. E reelegeu-se porque a Nação atribui-lhe a capacidade de continuar conduzindo o País rumo à estabilidade, apesar dos custos sociais e econômicos decorrentes desta meta. O País enfrenta o dilema de lutar pela estabilidade e, por intermédio dela, recuperar o crescimento econômico. O presidente, o desafio de comprovar, através de medidas eficazes - e urgentes - que sua recondução ao cargo foi um acerto.





