Em meio a este clima que se pode chamar de histeria econômica coletiva, com a palavra crise sendo usada e repetida, até com entusiasmo, em todos os tipos de noticiários, a informação sobre o registro do segundo mês consecutivo no Brasil de um índice inflacionário negativo ficou quase escondida. E quem percebeu, ao invés de destacar um fato verdadeiramente fantástico para o País - que há apenas quatro anos enfrentava uma inflação superior a 1% ao dia -, prefere pensar no lado pessimista: inflação negativa é ruim porque indica que se está em recessão. Não há dúvidas que a deflação - como é chamada pelos especialistas -, traz problemas econômicos sérios, e a recessão é um deles. Todavia, é importante lembrar que o Brasil já viveu situação pior: inflação galopante acompanhada de recessão, a estagflação, capaz de levar qualquer país ao caos. Nos últimos anos, com o desenvolvimento do plano de estabilização, também houve fases de recessão. Hoje, o quadro é igualmente complicado. O desemprego está aí, desafiando governos e representando, sem dúvida, um dos maiores desafios da sociedade.
Entretanto, é importante perceber que para a maioria da população brasileira, aquele imenso segmento que não joga na Bolsa, não tem dinheiro sobrando para comprar dólares, vive de um salário ainda baixo, o assunto mais importante não é a situação do mercado, mas o do supermercado! Sem dúvida, as oscilações da Bolsa representam uma ameaça, inclusive porque também - assim como a deflação -, sinalizam para uma situação em que a recessão é um perigo real. Entretanto, neste momento, é da mais alta relevância perceber que o plano de estabilização continua na trilha positiva, apesar de tudo, até da falta da participação oficial, do déficit público, enfim de todos os problemas.
O grande desafio brasileiro dos últimos anos foi este: acabar com uma inflação verdadeiramente catastrófica e que aparentava ser invencível. Muitos planos econômicos foram lançados, houve congelamentos de preços e salários, confisco de dinheiro (até da poupança), e nada. Se nos primeiros momentos havia a impressão de sucesso, em pouco a terrível inflação voltava, ainda com mais força. O Plano Real, articulado de modo excepcionalmente inteligente, sem choques, sem congelamentos, sem confiscos, enfim sem violência, tem se mostrado eficiente. Não acabou com a inflação de um golpe, mas foi derrubando paulatinamente os índices até chegar aos resultados atuais, com dois meses seguidos de inflação negativa. Quer dizer, é possível acreditar que, de fato, o Brasil venceu este enorme desafio.
O preço desta vitória não é barato. Há enormes problemas (muitos provocados pela falta de conclusão das reformas estruturais), o desemprego persiste, faltam estímulos à produção, o que é fundamental para a retomada do crescimento. Todavia, esta é a fase que só poderia ser encarada quando se atingisse a estabilidade, quando os índices de inflação estivessem zerados, com variações mínimas, para cima ou para baixo. Ou seja, os indicadores agora mostram que o Brasil chegou à situação desejada. Claro, as dificuldades externas, a crise mundial, tudo isto traz novos e complexos desafios.
É preciso, porém, sentir que este povo que conseguiu ser o agente principal desta fantástica vitória pode ser também o partícipe de outras, na sequência. Há que se colocar as coisas em perspectiva real, partindo-se para uma fase nova, com a conclusão das reformas e uma ação serena capaz de garantir ao País condições de enfrentar qualquer crise ‘made’ lá fora.

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