Editorial - Oportunidade perdida
Os últimos acontecimentos políticos, vinculados à postura dos governadores oposicionistas em relação às dívidas estaduais e ao revide do presidente FHC, que, irritado com as críticas e pressões, acabou cancelando a reunião que manteria com eles nesta terça-feira, apontam para uma situação delicada, num momento já especialmente difícil para o País. Como se não bastassem as agruras de uma crise econômica sem perspectiva de recuo, o governo e parte dos Estados caminham para o acirramento de uma grave briga política, na qual a falta de diálogo estabelece de antemão uma verdade indiscutível: numa guerra assim, sem negociação, todos já entram como perdedores.
Sob pressão, o governo busca estabelecer uma agenda emergencial, tanto no Parlamento quanto nas costuras estaduais, na busca de respaldo para medidas que, em tempo de instabilidade, são invariavelmente amargas. O tranco no Plano Real, com o fim das âncoras cambiais e a desvalorização da moeda, aliado à perspectiva de ressurgimento da inflação e recuo nos investimentos da produção, deixam o País em sobressalto, num quadro em que a ação da classe política pode ser decisiva para se enxergar a luz no fim do túnel. Mas os fatos parecem apontar para o lado oposto. Os sete governadores oposicionistas reunidos sexta-feira na capital gaúcha firmaram posição única: querem a todo custo renegociar as dívidas estaduais em termos compatíveis com a realidade e o interese público, e ainda o fim das retaliações financeiras que estariam sofrendo. Eles divulgaram a Carta de Porto Alegre, cujo título melhor atenderia a realidade se fosse Ultimato de Porto Alegre, e não deixaram dúvida no ar: ou o Governo federal cede, ou eles simplesmente encerram o diálogo - e os pagamentos. O governo de Alagoas já fala em mobilizar o povo e enfrentar o governo federal.
A irritação do presidente FHC foi imediata, com o cancelamento do encontro que poderia apontar alguma possibilidade de negociação. O Planalto diz que não abrirá mão do cumprimento dos contratos de renegociação das dívidas aprovados pelas assembléias estaduais; aceita buscar a cooperação com os Estados, mas exige deles ajustes profundos, com cortes de pessoal e privatizações. A verdade é que o acirramento de posições nesse momento, e ainda mais no meio político, que naturalmente canaliza sentimentos e anseios da população, e a representa por meio legítimo do voto, pode - e vai - contribuir apenas para esgarçar as possibilidades de entendimento e aprofundar divergências que poderiam ser superadas pela diálogo. O País não tem tempo a perder. Não se trata de tirar a razão deste ou daquele lado, a crise é para todos. Mas se espera da elite política brasileira um esforço vital pela garantia da estabilidade e, portanto, do emprego, da produção, do investimento produtivo. E isso só é possível com diálogo.
É a negociação e o bom senso que estabelecem os parâmetros factíveis da ações frente à crise, justamente por dividir responsabilidades e avaliar os efeitos das medidas sobre a população. Um bom exemplo foi dado pelo próprio Congresso, na sexta-feira, ao rejeitar, com veemência, qualquer possibilidade de aumento da carga tributária. O governo espera obter superávit fiscal de R$ 8 bilhões, fixado pelo Fundo Monetário Internacional, novamente com mais impostos, e isso o Congreso está disposto a impedir, e com toda a razão. O Planalto praticamente já garantiu a renovação da CPMF, o imposto do cheque, e o que precisa fazer é cortes ainda mais profundos nos seus próprios gastos, e não buscar o caminho fácil do bolso do povo.
O diálogo exige ainda mais habilidade e compromisso com o País justamente quando as adversidades são maiores, como agora. O abismo que se abre entre o Planalto e parte dos Estados brasileiros contribui apenas para dar novo fôlego à crise, justamente no momento em que é preciso sufocá-la. Terça-feira poderia ser o início de uma nova fase. Mas, em vez de estar de olho no que seria uma boa conversação, o País ficará novamente ligado apenas na cotação do dólar e nas oscilações das Bolsas.





