Editorial - Omissão ante a agitação
As cenas de violência envolvendo manifestantes e policiais, em pleno centro de São Paulo, repetindo fatos semelhantes ocorridos em outros pontos, incluindo os registrados recentemente nas cercanias de Curitiba, com repercussão nacional, ampliam a preocupação diante do sensível agravamento de todo o quadro social no país. Já há até quem considere que esta situação lembra a agitação vivida nos primeiros meses de 64, culminando com o golpe militar que manteve o país sob o jugo totalitário por 21 anos.
Em realidade, a situação hoje é ainda, felizmente, muito diferente da vivenciada naquela época. Importa rememorar, sem dúvida, até para alertar sobre os riscos de repetição, que naquele tempo ponderável parte da agitação era procedente do próprio poder. Com efeito, o Governo Federal adotou, à época, atitudes que não se coadunavam com o próprio sentido do poder. Estimulou a desobediência militar e as manifestações, inclusive greves, dentro da filosofia do quanto pior, melhor, o que consistia em criar uma situação anárquica que acabou levando a tudo o que se viu a partir de março de 64.
Hoje, o Governo Federal não estimula o tumulto. Todavia, mostra-se ausente e incapaz de conter a agitação que, na maior parte dos casos e notadamente em São Paulo, durante a semana passada , decorre precisamente de uma verdadeira apatia dos governantes, de uma indisposição inclusive de dialogar com o próprio funcionalismo, convertido atualmente numa das maiores vítimas do ajuste fiscal. Já os governos estaduais, responsáveis pela segurança, também se mostram inábeis diante dos protestos e manifestações e totalmente incapazes face à agitação maior.
Esta falta de habilidade para enfrentar tais conflitos, sem agravá-los ou criar um clima de guerra civil (ainda que localizada), já levou o presidente a fazer a mais absurda das ameaças, a de colocar o Exército nas ruas para restaurar a paz. Felizmente, até agora, esta alternativa, que pode ser considerada até alucinada, foi descartada. Todavia, a repetição dos incidentes, culminando em São Paulo com a agressão real sofrida pelo governador Mário Covas, apenas serve para ampliar a insegurança pública. Além disso, provoca uma situação de alarme que deveria por si despertar as autoridades para suas responsabilidades, notadamente quanto à insatisfação gerada, entre outras coisas, pela falta de disposição até para dialogar com categorias que reclamam, justamente, do arrocho a que têm sido submetidas.
Embora o clima atual esteja distante do vivenciado em 64, é mais que certo que tanto o Governo Federal quanto as administrações estaduais estão devendo ao povo atitudes mais objetivas para enfrentar as crises atuais. Isto significa, inicialmente, que tanto a União quanto os Estados precisam começar a usar de sensibilidade e habilidade diante das reivindicações de funcionários públicos, professores e de categorias privadas, como os caminhoneiros. O salário da maioria do funcionalismo está congelado há tempos; a situação dos professores é similar ou pior, evidenciando inclusive a falta de vontade no sentido de dar atendimento a seus justos apelos. O próprio salário mínimo, imposto pela União quase que à força, representa por si uma desvalorização real do trabalho. Há, em toda esta situação (excluindo até a questão mais complexa dos sem-terra), uma evidente insensibilidade dos governantes ante o desespero de quem trabalha, no setor público ou privado. E esta omissão assusta mais que a própria agitação.





