Editorial - O vilão da inflação
Naqueles terríveis anos de inflação exacerbada, alguns produtos, devido a inesperadas e grandes altas, eram batizados de vilões da inflação. Foi o caso do chuchu, que em dado momento teve os preços elevados demais e ficou com aquele inglório título. Hoje, felizmente, as coisas mudaram e o Brasil celebra a menor inflação dos últimos 50 anos com os resultados de 97 (em torno de 5%), com a vantagem de se acreditar que 98 não apenas vai bisar o resultado, mas será ainda melhor. O satisfatório índice de 97, porém, também teve seu vilão, aquele item que subiu muito mais que a inflação e, até por isto, evitou que o total final do ano pudesse ser menor. Mas não foi o chuchu, nem qualquer produto agrícola ou industrial, o tal vilão. O que mais subiu ao longo do ano passado foram os preços públicos, com um índice de 21,2%.
Já bem antes da vigência do plano de estabilização, os preços públicos (tarifas e aqueles controlados pelo Governo) contribuíam de modo pleno para o descalabro da inflação galopante que o País vivia. Todavia, à época, a situação era tão caótica que pouca diferença fazia. Tudo subia, chegou um momento em que ninguém mais tinha sequer idéia de valores, a anarquia econômica chegou a um ponto que o grande milagre brasileiro da época foi o País não mergulhar no caos total.
Com a estabilização, as coisas deveriam mudar. Em certo sentido, houve alterações que resultaram nestes índices cada vez mais baixos. Mas, infelizmente, o Governo persistiu em sua forma de agir, sem levar muito em conta sequer suas obrigações. Sacrifícios são impostos a todos, mas o Governo consegue livrar-se deles, exatamente por ser quem dá as ordens. E apresenta razões para isto, como a defasagem das tarifas, as determinações do Banco Mundial, a necessidade de acabar com o déficit nas empresas prestadoras de serviços públicos, até mesmo a questão da privatização: trata-se de tornar atrativas as empresas, o que implica em tarifas adequadas.
Todavia, esta política irresponsável se reflete no plano em geral. Ninguém nega que 4,8% de inflação em um ano (conforme os números da Fipe) é muito bom para um país que vivia mergulhado em índices absurdamente altos na fase pré-real. Mas ainda é um total alto demais para uma economia sadia. O ideal seria algo em torno de 1% ao ano, o que, porém, só poderá ser sonhado se o Governo mudar seu modo de agir e se dispuser a fazer sua parte, não só com as reformas estruturais, que seriam o grande passo para conter o déficit público, mas também com uma administração nas tarifas e preços controlados.
O desejável é que para este ano de 98 as autoridades (e não só federais, mas também as estaduais e até municipais, responsáveis por tarifas específicas), resolvam participar efetivamente da luta pela estabilidade. Com as correções já feitas, espera-se que os motivos apontados para esta política, que pode até ser chamada de irresponsável, estejam superados. Até porque, se não houver a adequação das autoridades e uma participação mais efetiva no processo, as dificuldades antecipadas para o ano podem ser maiores. De fato, apesar de algumas projeções pessimistas, existe certo consenso sobre a manutenção dos baixos índices inflacionários, o que representa fato vital para que se atravesse bem este ano de 98. Se as autoridades adotarem uma política mais correta em relação aos preços que administram, notadamente em relação aos seus reajustes, darão contribuição importante à luta que deveria ser de todos os segmentos da sociedade brasileira.





