Levantamentos que começam a ser divulgados revelam que em 1998 houve menos acidentes nas estradas, com consequente redução no número de mortos, o que é, sem dúvida, auspicioso. Mas está muito longe de ser o ideal. Além disso, embora os dados sobre a situação rodoviária sejam positivos, há outros números mais dolorosos: em Londrina, por exemplo, o total de acidentes ao longo do ano foi inferior ao registrado em 97, o que não impediu que crescesse o número de mortos. E uma agravante em tudo isto: os mortos se situam em faixa etária baixa. O trânsito, em síntese, embora talvez não produzindo este ano aquele banho de sangue de outras épocas, continua a ser uma das maiores causas da morte de jovens e adolescentes no País. E só esta constatação obriga a que se focalize ainda com maior intensidade esta questão, que continua a ser um problema e um drama para milhares de famílias.
Para os especialistas, a redução no total de acidentes, de modo global, é um reflexo do Código Nacional de Trânsito, que entrou em vigor em janeiro. É possível. Todavia, é certo que o resultado obtido ainda é muito inferior à perspectiva e à necessidade. O trânsito no Brasil, como em vários países do mundo, representa mais do que um desafio, é um verdadeiro enigma colocado ante os homens, como o da Esfinge, exatamente com a mesma terrível opção. A Esfinge exigia a decifração, sob pena de matar o passante. O trânsito reclama alternativas concretas, efetivas e objetivas para deixar de ser este grande assassino que está ceifando milhares de vidas todos os anos, boa parte delas de jovens cuja perda representa um vazio que não pode ser preenchido.
O atual Código Nacional de Trânsito sucedeu a outro que surgiu há cerca de 30 anos com a mesma esperança: na época, como agora, era vital conseguir estabelecer medidas capazes de conter as loucuras do homem ao volante de carros ou outros veículos. E, como há três décadas, trouxe uma série de medidas consideradas duras, multas pesadas, determinações fortes, um conjunto enfim de normas que dava a impressão de que iria mudar as coisas. Não mudou muito. O novo Código, com pouco menos de um ano, trouxe as mesmas esperanças. E chega quase ao término de seu primeiro ano de vigência devendo muito, em relação às esperanças que gerou.
Estes fatos reforçam a tese segundo a qual leis, por si, não resolvem problemas. É uma realidade conhecida, mas constantemente esquecida pelos brasileiros, que dão a impressão de acreditar que todos os problemas podem ser resolvidos pela simples fórmula de criar legislações específicas. Se fosse assim, como se sabe, bastava editar uma só determinando que todas as pessoas do mundo fossem felizes ou que ninguém mais passasse fome. A realidade é outra. O atual Código Nacional de Trânsito, como tantas leis brasileiras, envolve fantásticas intenções. Colide frontalmente, porém, com uma série de problemas, com estradas em péssimas condições, cidades com sistema viário deficiente e, principalmente, motoristas e motociclistas sem condições para a responsabilidade que é dirigir um veículo motorizado.
O grande desafio não é mais o de fazer novas leis ou sequer de aumentar o valor das multas ou penalidades. O fundamental é modificar mentalidades, é perceber que o caminho para conseguir reduzir ao máximo este terrível desperdício de vidas é o da educação consciente da população, a partir da infância. Sem educação, as leis não valem sequer o papel em que são escritas.

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