Editorial O trabalho da CPI Para um começo de trabalho, o resultado do primeiro dia de atividade da CPI do Narcotráfico no Paraná chega a ser assustador: três policiais civis e um empresário paranaenses tiveram as prisões decretadas pela Justiça. Depois de ouvir o depoimento de cinco pessoas, entre elas ex-policiais e ex-consumidores de drogas, o presidente da CPI, deputado federal Magno Malta, leu o mandado de prisão dos policiais civis Reginaldo Moreira, Samir Scandar e Edenir da Silveira, além do empresário Hissan Hussein Dehini. Eles foram citados por quase todos os depoentes como sendo os principais traficantes de Curitiba e ficarão presos por pelo menos 30 dias. Outros policiais civis também foram citados como chefes do tráfico, mas não tinham comparecido à sessão. Durante os depoimentos, foram citados os nomes de 19 investigadores, sete delegados e alguns proprietários de desmanches de carros que estariam envolvidos direta ou indiretamente com o tráfico de drogas, extorsão ou roubo de veículos. Houve acusações de recebimento de propina ou de acobertamento da corrupção por delegados de polícia, entre eles o ex-delegado-geral da Polícia Civil, Newton Rocha, e o atual, João Ricardo Képpes de Noronha. Ainda como resultado do primeiro dia de depoimentos, Noronha foi afastado do cargo, por tempo indeterminado e sem vencimentos, pelo governador Jaime Lerner. A lei brasileira estabelece que qualquer pessoa é inocente até que se prove sua culpa. O fato de haver denúncias, como as que foram lançadas no início do trabalho da CPI do Narcotráfico, não implica em considerar culpados os acusados. Cada um e todos, assim como os muitos outros que vão acabar sendo envolvidos nesta investigação, terão o direito à defesa plena, conforme está estabelecido na lei. Todavia, é certo também que algumas consequências, como o afastamento do sr. Képpes de Noronha, podem ser consideradas naturais. É necessário garantir a ele, como aos demais denunciados, o direito de defesa. Todavia, diante da acusação inicial, é certo que sua presença como delegado-geral da Polícia Civil do Estado fica altamente comprometida. E a prisão imediata de alguns dos que foram acusados também se justifica, diante da própria necessidade da investigação. É um começo que produz expectativas muito elevadas. Já havia um certo clima sobre o trabalho da CPI no Paraná, diante de denúncias e da própria situação do Estado, que tem amplas possibilidades de estar envolvido em toda esta questão do tráfico. Os primeiros depoimentos e as medidas já adotadas confirmam o que se temia. Mas é vital que as coisas caminhem até o final. As denúncias são tremendamente sérias, a questão é delicada e envolve elementos ligados à segurança, o que é profundamente preocupante. Ademais, e isto também é relevante, existe, aqui como em quase todo o país, a percepção de que há policiais envolvidos em muitas áreas criminosas, especialmente a do tráfico, que tem grande poder corruptor e ameaçador. É fora de dúvida que os informes já colhidos pela CPI do Narcotráfico, que confirmam acusações e suspeitas, não podem cair no costumeiro ramerrão de situações não resolvidas. Os primeiros resultados são sérios e implicam na necessidade de se ir até o final, até porque os indicadores iniciais são por si alarmantes. Supor que a polícia esteja contaminada pelo crime é uma coisa. Ter informações como as que já foram colhidas pela CPI é outra, mais grave. O afastamento do delegado-geral da Polícia Civil, a prisão de alguns policiais, isto é apenas o início. Há que se exigir que a investigação vá às últimas consequências para que os paranaenses possam ter confiança em suas autoridades.