Editorial - O temor da indexação
Mais grave que a inflação que ressurge, como resultado dos ajustes ocorridos na vida brasileira, notadamente a liberação cambial que levou o real a uma desvalorização pesada, é, conforme já observaram alguns especialistas, a possibilidade da retomada da indexação. Com efeito, o que provocou a inflação exacerbada e praticamente incontrolável, nos últimos anos, foi a indexação plena que, vale rememorar, foi praticamente instituída pelas autoridades do setor econômico para propiciar aquilo que para os experts era uma verdadeira impossibilidade prática, a convivência da inflação com o crescimento.
Esta verdadeira mágica econômica surgiu com a criação da correção monetária, uma autêntica demonstração prática do famoso jeitinho brasileiro. Até que a sistemática deu a impressão de funcionar, nos primeiros tempos. O Brasil surpreendia o mundo, convivendo com índices cada vez mais altos de inflação, sem se precipitar no caos antecipado pelos teóricos de todo o mundo. Claro, este sistema de realimentação inflacionária pela correção monetária acabou se revelando um veneno em si mesmo, levando os índices de inflação a níveis cada vez mais elevados, destruindo a moeda, aviltando os valores e inclusive a própria moral, até se chegar a patamares verdadeiramente insustentáveis.
Os sucessivos planos econômicos surgidos a partir de 1986, com o Cruzado, que visavam conter esta assustadora tendência inflacionária, fracassaram quase sempre porque não se conseguiu eliminar a mentalidade indexatória. Bastava que a inflação ressurgisse, o que era quase natural porque a maioria das medidas dos programas adotados não eram profundas nem iam à base do problema, para a indexação também reaparecer, restaurando-se a espiral, em níveis cada vez piores. O Plano Real, lançado pelo governo Itamar Franco, foi mais inteligente no particular porque foi, primeiro, à base da questão, produzindo uma indexação plena, através da URV. Quando tudo estava indexado, então veio a nova moeda, no valor da URV. A idéia, a partir daí, foi acabar com aquele tipo de correção, o que funcionou.
A questão agora é saber se os cinco anos do atual plano de estabilização foram suficientes para mudar a mentalidade nacional. Isto é vital. Os índices de aumento observados nos últimos dias, como resultado da desvalorização da moeda, indicam claramente que o Brasil terá, nos próximos meses, um novo surto inflacionário. Entretanto, é certo que não há por que ocorrer a indexação diante desta situação. Uma vez reencontrado, pelo próprio mercado, seu equilíbrio, as coisas tendem a voltar à normalidade e a inflação pode cair outra vez. Ocorre que não se pode deixar de salientar que se muita coisa de fato mudou, no Brasil, nestes anos, houve outras que persistiram e que são até inerentes à natureza humana. A exploração, o abuso, a especulação, a esperteza de muitos, tais coisas são difíceis de superar.
O que é necessário é que a grande maioria que sentiu o sabor de uma economia estável, que gostou disto e que, em grande parte, foi responsável por isto, mantenha a atenção e evite os ardis especulativos. Uma parcela razoável do empresariado - e também dos consumidores, naturalmente - está lutando contra os aumentos abusivos de preços. Há porém que resistir, também, a outros ardis, mais sutis, que podem ser usados pelos demagogos e aproveitadores que sempre tiram proveito das dificuldades da população. O povo e também as autoridades, notadamente os setores responsáveis por tarifas públicas e preços controlados, precisam ficar atentos e fugir ao canto da sereia da indexação para acompanhar a bolha inflacionária, o primeiro golpe capaz de restaurar uma situação que os brasileiros já vivenciaram, recentemente, e não querem repetir jamais.





