Editorial - O resgate de Elián
O resgate de Elián
As cenas do resgate do menino cubano Elián González, retirado à força pelos agentes federais do Serviço de Imigração dos Estados Unidos (INS) da casa dos seus parentes, em Miami, são verdadeiramente assustadoras. O flagrante em que um agente aparece, com máscara contra gases, apontando uma assustadora arma contra o pescador que segurava Elián no colo, poderia ser usada em qualquer anúncio de crítica aos regimes totalitários que não respeitam sequer uma criança. Todavia, este é um caso em que a impressão não condiz com a realidade. Toda aquela cena, que dá uma tremenda idéia de opressão policial, constitui a reação da Justiça diante de atos abusivos de quem (talvez não especificamente os parentes do menino, mas exilados cubanos tentando afrontar o regime de Fidel Castro) insistiu em descumprir a decisão judicial para a entrega do garoto que seria, então, devolvido ao pai.
O caso que culminou com as referidas cenas começou em fins de novembro. A mãe de Elián tentava fugir de Cuba, levando o filho. O barco naufragou, a mãe morreu, o garoto foi resgatado por pescadores, levado a Miami e entregue a parentes que moravam ali. Era um drama familiar que ganhou novos contornos quando o pai do menino, que mora em Cuba, reclamou sua devolução. Até aqui, uma questão trágica, mas de contornos facilmente detectáveis, envolvendo uma criança e seu pai. Os acontecimentos subsequentes é que transformaram o caso em uma pendência ideológica. O assunto pai-filho foi posto de lado enquanto se discutia se Elián deveria ou não ser devolvido não ao seu progenitor, mas a Cuba.
A Justiça dos Estados Unidos decidiu, depois de muitas discussões, conforme aquilo que se pode considerar o justo em termos do próprio entendimento de ética e moral: o menino deveria ser devolvido ao pai, independente do país em que ele mora ou da situação política envolvida. Uma decisão absolutamente correta do ponto de vista do entendimento humano, colocando a família em evidência. Tentou-se oferecer ao pai de Elián a possibilidade de ficar nos Estados Unidos, o que é uma atitude que pode ser entendida, face à pendência ideológica que envolve governos cubano e norte-americano. Mas como o pai, Juan Miguel, manifestou a intenção de voltar a seu país, não havia mais o que discutir.
A ação violenta realizada para resgatar o menino representou uma reação lamentável mas, em certo sentido, inevitável, diante da desobediência a determinações legais. Podem-se usar as imagens numa crítica ao governo norte-americano. Entretanto, não há como deixar de entender que todo o episódio representou uma reação à desobediência à lei e à Justiça, fatores que podem ser discutidos, mas que não podem ser contestados. Os esforços para manter Elián com seus parentes, nos Estados Unidos, em contraposição ao direito reconhecido do pai, foram realizados nos padrões mesmo da democracia, com todas as oportunidades para a defesa das posições relativas aos que queriam mantê-lo naquele país. Uma vez estabelecida a decisão, que segue, importa repetir, padrões mundiais de respeito à instituição familiar, o que teria de ser feito era devolver o menino ao pai.
O episódio todo é trágico, sem dúvida. Não deveriam existir situações como esta que o garoto enfrentou, incluindo a morte de sua mãe na tentativa de fugir a um regime de força. É uma situação em que não há inocentes, salvo o garoto. Cuba, com sua política totalitária, os Estados Unidos com as restrições aos imigrantes, os que, dos dois lados, tentam capitalizar a dor de uma família, todos são culpados. Mas, pelo menos, percebe-se a intenção de preservar, contra tudo, a instituição familiar, que é base do próprio senso de humanidade.





