Em meio à balbúrdia da economia mundial, a afirmativa do presidente Fernando Henrique Cardoso garantindo que não pretende desvalorizar o real pode ser recebida com cautela e até desconfiança. Dirigente nenhum vai antecipar uma possível desvalorização da moeda, inclusive para tentar evitar a especulação que ocorreria diante deste tipo de anúncio. Ademais, os brasileiros ainda têm na memória as inumeráveis negativas dos presidentes e ministros sobre medidas que, alguns dias depois, eram adotadas. Para completar o quadro, tem-se o recente anúncio do presidente da Rússia, Bóris Yeltsin, que deu taxativa garantia de que o rublo não seria desvalorizado, o que aconteceu menos de 48 horas depois.
Porém, o que altera um pouco esta situação é a realidade brasileira atual. O Brasil está hoje visceralmente integrado à economia globalizada. Ao contrário do que acontecia há alguns anos, época da total desorganização econômica, quando a falta de parâmetros internos dava à economia brasileira uma conotação diferente da de outros países, agora existe um quadro diverso. A moeda estável está também ligada à realidade mundial. Mas isto não induz, obrigatoriamente, à necessidade de mudanças em função do que está ocorrendo lá fora, sob o risco de reflexos tremendos na própria estabilidade. E em plena campanha eleitoral, embora com uma vantagem bastante grande (segundo as pesquisas), o presidente não pode correr o risco de adotar este tipo de solução porque a consequência imediata - além de uma perigosa quebra de confiança popular -, seria um abalo no programa econômico, com a possível elevação da taxa inflacionária. E para um país que ainda não superou todos os males da inflação exacerbada de há alguns anos, este seria o pior dos problemas.
A afirmação de que efetivamente não haverá desvalorização da moeda, no Brasil, em função mais da campanha eleitoral do que da afirmativa presidencial, não deve causar espanto. Como se percebeu, e como a própria experiência revela, não poucas vezes os governantes - aí incluídos também os ministros -, são obrigados a dizer uma coisa e fazer outra. E é também possível notar que diante da pressão que está ocorrendo nos mercados mundiais, provocando, entre outras coisas, a fuga de capitais, desvalorizar a moeda ou aumentar a taxa de juros (visando atrair o volátil dinheiro estrangeiro) são medidas cabíveis. No ano passado, em meio a uma crise que não parecia tão séria quanto esta que atinge a Rússia, o Brasil teve de engolir um pacote econômico muito indigesto, que ainda produz efeitos negativos. Logo, se a crise continuar ou ficar pior, a idéia de adotar novos remédios amargos não só se torna atrativa, mas pode ser até a única para evitar efeitos piores sobre a economia interna.
Ainda assim, é de crer que o governo, neste momento, só adotará este tipo de remédio se a situação atingir um patamar insustentável. Enquanto for possível enfrentar a situação sem o remédio duro da desvalorização da moeda ou um novo aumento na taxa de juros (que também é terrivelmente ruim para a dívida interna), é certo que estas alternativas não serão usadas. Todavia, persiste a questão sobre a fragilidade da economia nacional diante de um mercado complicado, vacilante e altamente especulativo. Em face mesmo da impossibilidade de se adotar medidas amargas e perigosas, é imperativo esperar que haja outro tipo de cuidado. Trata-se de insistir na adoção de medidas que fortaleçam o mercado interno e a economia, tornando-a menos suscetível à crise externa. É difícil conseguir isto, até porque exige medidas de longo alcance. Mas é possível e desejável.

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