No começo dos anos 50, como efeito até dos resultados da II Guerra Mundial, o Brasil passou a viver uma fase em que a presença norte-americana se fez muito intensa, tanto na economia como na cultura e até na política. De tal modo isto se firmou que um antigo ministro brasileiro chegou a afirmar, taxativamente, que ‘‘o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil’’, frase que provocou a natural contestação de muitos, notadamente a chamada faixa mais à esquerda. Em contraposição, surgiu um forte sentimento nacionalista e o Brasil, ainda que distante dos problemas que forjaram as questões que produziram a guerra fria, também acabou vivenciando a divisão entre os que consideravam correta a união maior de interesses com os norte-americanos e os que faziam eco à grita que chegou a atravessar o continente e o mundo, consubstanciado na frase ‘yankees, go home’.
O tempo passou, as coisas mudaram, até a guerra fria terminou com o inesperado esfacelamento do império soviético na Europa, o fim dos regimes comunistas e a queda do Muro de Berlim, transformações que abriram caminho para a nova realidade política mundial que se vive hoje. Não é ainda a esperada fase de paz e prosperidade entre as nações, mas é uma situação bem diferente da que se viveu nos anos 50 e 60. Os países formam novas alianças, a economia ocupa o lugar da política e o regionalismo dá a impressão de se tornar o grande objetivo desta véspera de novo milênio. A Europa, esfacelada por guerras sem conta nos últimos séculos, abre o cortejo com uma união que, agora, tem até moeda comum. Na América, enquanto não se forja o grande bloco do continente, formam-se núcleos regionais como o Nafta, ao norte, e o Mercosul entre nós. Os blocos produzem um tipo de fortalecimento que é considerado importante nesta época de competição cada vez mais dura entre os povos do mundo.
O Mercosul, neste quadro, dá a impressão de ser uma resposta adequada ao desafio contemporâneo. A idéia de uma grande união latino-americana (que remonta, sem dúvida, aos ideais de Simon Bolivar, o grande libertador da América espanhola), tem sido defendida ao longo dos tempos por muitos idealistas. Inúmeras tentativas ocorreram, mas só agora as coisas parecem se encaminhar melhor. Não é ainda a grande integração continental, mas com a força dos maiores países do sul da América representa uma abertura importante. Todavia, não pode ser deixada de lado a observação simples feita a respeito de qualquer tipo de negociação, entre homens, empresas ou nações e que é a seguinte: qualquer negócio só é bom se beneficia igualmente a todos os envolvidos. No caso do Mercosul, ainda que haja diferenças imensas entre os países que o formam, só se pode considerar válida a idéia se todos forem igualmente beneficiados.
Neste momento difícil que o Brasil atravessa, certos fatos mostram que pelo menos alguns participantes deste bloco não partilham da idéia sobre benefícios comuns. Com a desvalorização do real, os vizinhos argentinos já se mobilizaram e o presidente Fernando Henrique Cardoso já adotou normas para ‘proteger’ os sócios daquele país. De repente, parece que se resolveu cunhar uma nova frase segundo a qual ‘‘o que é bom para a Argentina é bom para o Brasil’’. É, sem dúvida, uma tese discutível. Naturalmente, como cada país que forma em um bloco tem seus problemas, é preciso que sejam feitas certas concessões. O que não se entende, porém, é que quando as coisas iam bem para os vizinhos ninguém reclamava. Talvez esteja na hora de, sem xenofobia, mas com certa preocupação, cunhar um novo slogan considerando que ‘‘o que é bom para os brasileiros é que deve ser bom para o Brasil’’.

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