Nenhum plano de estabilização realizado no mundo conseguiu fazer sem traumas a passagem da hiperinflação para uma inflação perto de zero. As vantagens da moeda estável, no entanto, são tão notáveis e os danos da hiperinflação tão desmesurados que se justifica plenamente passar por apertos para superar os traumas da nova ordem. E quais são eles? Basicamente, o trauma é um só: o fim das muletas com as quais se amparava a ineficiência do sistema produtivo. De uma hora para outra o aleijão brasileiro ficou sem elas no meio do trânsito.
Esse aleijão sempre andou com duas muletas: a da direita fazia a correção monetária dos valores; a da esquerda fazia o dinheiro girar no mercado a taxas que ou se igualavam ou superavam a inflação mensal - raramente perdiam -, dando a impressão de que a ciranda era um meio de estar sempre à frente do dragão inflacionário.
A muleta da direita nunca falhava: a correção monetária era automática. E para os governos era uma espécie de varinha mágica, pois corrigia todas as suas receitas e deixava carradas de débitos fora. Por isso, sem ela todos estão hoje em má situação, alguns governos já completamente falidos. A outra muleta fazia outra maravilha: o setor privado não precisava ser eficiente, rentável ou produtivo, pois aplicar o caixa - o 1 e o 2 - no overnight dava tanto dinheiro que era possível pagar com ele toda a folha de salários da empresa.
A estabilidade introduzida pelo Plano Real na vida brasileira acabou com essas duas muletas - na verdade, duas molezas sem paralelo no mundo. Agora, com a crise asiática, a muleta da ciranda voltou, mas por tão pouco tempo que não vai dar para aposentar os programas de modernização. De modo que, a rigor, as duas velhas muletas acabaram mesmo e deixaram o setor público e o privado sem pai nem mãe.
É esta situação que tornou necessário o Proer - para os bancos não quebrarem e as contas correntes e aplicações de aproximadamente 100 milhões de brasileiros não virarem pó da noite para o dia. E, agora, o chamado ‘Proer da agricultura’, que atende pelo nome de Recoop - Programa de Revitalização das Cooperativas. Pois estas, como qualquer empresa, também se viciaram durante décadas nas duas históricas muletas descritas acima. Um grande número delas começou a ter graves problemas de 1995 para cá.
Será dinheiro público jogado fora, como afirmam os opositores do Proer? A pergunta talvez possa ser respondida com outra pergunta: será que não vale a pena salvar 400 de um total de 1.400 cooperativas, e impedir o caos na agricultura? Será que não valeu a pena facilitar a incorporação de uns poucos bancos em má situação, e evitar a quebra de todo o sistema financeiro? Como, aliás, está acontecendo na Ásia.
As cooperativas reúnem em sua grande maioria pequenos e médios agricultores que não dispõem de modernos sistemas de proteção numa atividade de alto risco e baixo apoio oficial. No Brasil não existe seguro contra a quebra de safras, assim como não existe seguro para os correntistas contra a quebra do banco. Se tivéssemos esses dois tipos de seguro, que existem em países do Primeiro Mundo, talvez não fosse preciso nem o Proer nem o Recoop.
Assim como o Proer, o Recoop é um mal necessário. Muita ineficiência e muitos vícios do passado acabam sendo finaciados por programas como esses. Mas o pior é deixar a economia quebrar. Por sinal, depois deste Recoop, o Governo federal deveria sentir-se na obrigação de criar algo parecido para as empresas do setor privado. Nos últimos três anos, um grande número delas já quebrou e outras se preparam para deixar sem emprego mais algumas centenas de milhares de brasileiros.

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