Editorial - O problema agrícola
Existe, inequivocamente, um enorme desajuste entre as necessidades do ser humano e as atitudes adotadas pelos que definem os destinos do homem. Sabe-se, por exemplo, que a fome é uma constante no planeta. Hoje, como há um século, o quadro é quase o mesmo: pelo menos um terço da humanidade passa fome. Há alguns anos, a FAO, organismo das Nações Unidas que trabalha na questão da agricultura e alimentação, traçou um quadro tenebroso quando anunciou que, à época, a produção de alimentos no mundo era insuficiente para atender à necessidade mundial. A análise era simples: dividia-se a produção pela população do planeta. O resultado foi negativo com a constatação de que se houvesse uma divisão equitativa, todos passariam fome.
Mas como o homem é, segundo sua própria conceituação, o único animal que pensa, salta aos olhos a solução para este problema: era necessário um trabalho firme, constante e direto destinado a aumentar a produção. Observe-se que a realidade apontada pela FAO à época não decorria do esgotamento das áreas agricultáveis, mas do mau uso delas. Quer dizer, a produção era insuficiente porque não havia um trabalho objetivo visando aumentá-la. O Brasil mesmo é indicativo disto: sua produção agrícola ainda é bem menor do que o seu potencial, há imensas áreas não aproveitadas sem falar de outras em que a falta da adoção de técnicas as mais simples implica em produção menor que a que se poderia esperar.
A verdade é que a resposta para esta verdadeira tragédia, que atinge um terço da população do mundo, é simples. Basta que haja um trabalho de apoio direto à agricultura. Mas é exatamente o que não acontece, nem aqui nem em parte alguma. Esta semana, os produtores europeus promoveram grande manifestação contra a proposta de lei que vai prejudicá-los e à população que deles depende. A situação dos agricultores daquele pedaço do mundo não é, porém, única. O futuro dos agricultores norte-americanos, ensombrecido pela crise asiática, russa e sul-americana, anuncia-se pessimista, segundo o secretário da Agricultura dos Estados Unidos, Dan Glickman. As perspectivas para os próximos dez anos não são boas, reconheceu ele na conferência anual sobre as perspectivas da agricultura em Washington. A economia nacional está em plena expansão, mas a América do Norte rural sofre, observou Dan Glickman.
É similar a situação no Brasil. Apesar dos anúncios otimistas sobre um aumento na última safra agrícola, a realidade é que ainda não produzimos sequer o suficiente para atender às necessidades internas. E, infelizmente, a questão não é observada, nem aqui nem lá fora, sob a ótica das necessidades humanas básicas. Entram em linha de discussão questões econômicas, sem dúvida relevantes, mas que obscurecem o principal. Uma delas é complicada: aumentar a produção agrícola pode fazer baixar os preços. Por outro lado, a parcela que passa fome não tem condições para comprar o que comer.
O erro básico desta premissa está não apenas na desumanidade dela, mas na falta de uma visão maior sobre a forma de resolver o problema de maneira que atenda a todos os interessados. A questão chega a ser óbvia: o incentivo à agricultura não apenas representa aumento na produção, mas propicia condições a que muitos possam comprar o que comer. Pois o campo, para produzir mais, abre condições de trabalho. Os que passam fome porque não têm emprego, podem trabalhar na agricultura: vão ter como comer e ajudarão no aumento da produção. É uma questão simples, que exige apenas vontade de enfrentar o problema.





