Editorial - O preço do petróleo
Às vésperas do início da reunião da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), em Viena, os norte-americanos mantêm uma posição de expectativa, enquanto a alta de preços da gasolina começa a gerar uma controvérsia política. O preço médio da gasolina normal nos Estados Unidos é superior em 50% ao do ano passado, sendo mais elevado do que o preço durante a febre altista de março passado. O secretário norte-americano de Energia, Bill Richardson, disse em entrevista à TV que os Estados Unidos querem que a OPEP analise com ponderação a possibilidade de um aumento na produção. Na última quarta-feira, a Casa Branca se recusou a dizer se os Estados Unidos estão pressionando os países produtores para que elevem a quantidade de petróleo no mercado. O porta-voz do Governo, porém, advertiu simplesmente que os altos preços do produto prejudicariam tanto os produtores como os consumidores, reduzindo a demanda mundial e, consequentemente, o volume de vendas. A cotação do barril de petróleo no mercado a termo de Nova York se situou em mais de 32 dólares na sexta-feira, uma alta superior a 75% em relação aos valores do ano passado. O aumento do preço do petróleo, reservas norte-americanas reduzidas em 12% em um ano e a obrigação de fornecer uma gasolina mais limpa pelas leis ambientais elevaram os preços do combustível.
A pressão, ainda que não muito explícita, dos Estados Unidos para um aumento na oferta provoca divergências no cartel, conforme os analistas. Os norte-americanos querem um aumento na oferta diária de petróleo pelos produtores da ordem de 1 milhão a 1,5 milhão de barris. A Venezuela é o único dos 11 países membros da OPEP receptivo à demanda dos Estados Unidos. A maioria dos demais países produtores é contrária, sendo que na Arábia Saudita há duas tendências: os que cuidam dos temas financeiros são contra o aumento, que faria os preços baixarem, mas os políticos não querem aborrecer os americanos.
Por maior que possa ser a pressão, porém, é quase impossível esperar que os países produtores aceitem a adoção de medidas que contrariem seus interesses. E, em certo sentido, estão certos. Durante décadas, os consumidores (inclusive amparados por ações colonialistas), determinaram a situação do mercado do petróleo. Só nos anos 70, quando os países produtores conseguiram a plena liberdade é que a situação mudou, provocando, como se recorda, uma verdadeira revolução mundial. Hoje, os membros da OPEP, com maior consciência de sua força, buscam aproveitar do melhor modo a riqueza que possuem. Incumbiria, no caso, aos países consumidores perceber esta situação e agir conforme a realidade. O preço do petróleo vai continuar subindo, seja pela política de contenção de produção, seja em função do aumento da demanda ou até devido a um possível esgotamento das reservas da chamada energia não renovável.
As nações dependentes, porque consomem demais, como os Estados Unidos, ou porque não possuem produção capaz de garantir as necessidades internas, precisam entender esta realidade e continuar na busca da auto-suficiência energética. O Brasil tentou isto no auge da crise dos anos 70. Depois, deu uma guinada. E hoje, como os demais países consumidores, sofre com a dependência e os riscos que as altas nos preços representam para a economia interna. Esperar que pressões, mesmo dos Estados Unidos, o maior consumidor, resolvam os problemas energéticos, é um equívoco. Melhor é adotar outras políticas, buscando encontrar novas reservas internas de petróleo e outras alternativas energéticas, antes que os novos preços do combustível no mundo provoquem mais uma crise como a vivida há 30 anos.





