Editorial - O povo refém dos políticos
Estranha a declaração do presidente Fernando Henrique Cardoso, que confidenciou a aliados que com as denúncias de seu ex-assessor Eduardo Jorge, ele vai voltar a ser refém de sua base de sustentação política. O citado antigo auxiliar direto e homem de total confiança de FHC fez declarações que envolvem o governo no escândalo que tem como pivô o juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto. Pior, porém, que o presidente se declarar prisioneiro dos que formam sua base de sustentação política no Congresso é perceber que nesta história toda é o povo quem fica com a parte mais dura, sentindo que até mesmo aqueles que poderiam (ou deveriam) merecer a mais irrestrita confiança, notadamente o chefe do Executivo federal, eleito e reeleito com maioria absoluta para o cargo, também podem estar de alguma forma envolvidos nos assaltos que vêm sendo cometidos contra o erário público brasileiro.
O que agrava toda a situação é a constatação segundo a qual este novo escândalo acaba por repercutir diretamente sobre o sistema democrático, com um número cada vez mais elevado de brasileiros pondo em dúvida a eficácia do regime e a possibilidade de qualquer mudança. Infelizmente, tem sido uma tendência muito comum a de se culpar a democracia pelos erros, desmandos, abusos e crimes cometidos por políticos. Na realidade, a questão é muito mais complexa e a própria (e dura) experiência dos brasileiros com anos de regime totalitário, especialmente os recentes 21 anos de ditadura militar, deveria servir como escudo em defesa da democracia, que é, inegavelmente, o único caminho para tirar os povos da opressão, da miséria, da infelicidade. Diante, porém, de tantos crimes que são cometidos por governantes democraticamente eleitos, até se entende a desilusão.
Neste momento, a responsabilidade maior no sentido de modificar este quadro é do próprio presidente Fernando Henrique Cardoso. Esta fragilidade que ele aparenta é a pior das posturas. O povo não elegeu os ministros, mas escolheu e com uma imensa confiança, conforme os resultados eleitorais a ele. A possibilidade de ter se equivocado na escolha de seus auxiliares diretos é aceitável. A falta de atitudes diante de situações como a atual, quando inclusive dá força ao atual ministro do Planejamento, Martus Tavares, é que provoca dúvidas. Em situações tão delicadas, diante de denúncias como as que foram feitas, todo o ministro envolvido pode e deve ser afastado, inclusive como modo para que o chefe do Executivo indique ao povo, principalmente, que está atento e que não pode pactuar sequer com dúvidas sobre a honradez e probidade dos que fazem parte de seu governo. Não se pode perder de vista, afinal, que a falta de atitudes do presidente não apenas o faz refém das bases políticas, mas o deixa em situação delicada junto ao eleitor brasileiro.
O povo brasileiro é quem está, de fato, vivendo uma situação difícil. Quer acreditar nos seus políticos e vez ou outra se sente animado quando um, dentre tantos corruptos, é punido. Todavia, a impunidade continua a ser regra geral, sendo a punição uma exceção. Para o prefeito de Londrina cassado com votação em aberto há a absolvição do prefeito de São Paulo, alvo de denúncias muito sérias mas que foi inocentado por uma Câmara que tem sido acusada por tremendas irregularidades. A votação secreta que salvou o sr. Celso Pitta, representou mais um fator a desacreditar os políticos e a política. A falta de atitudes claras dos governantes, a omissão de alguns, o abuso de muitos, são ocorrências que ameaçam não só o presidente, mas a democracia. O sr. Fernando Henrique Cardoso precisa tomar rapidamente consciência disto passando a agir com a dignidade que se reclama de todos quantos detêm cargo eletivo neste País.





