Editorial - O povo falou
Inegavelmente, o grande diferencial das eleições de ontem para as outras já realizadas no País foi a possibilidade de reeleição para o presidente e os governadores. Na verdade, já se percebeu isto na campanha, totalmente diversa da que se observou em outras oportunidades. O chefe de Executivo também candidato a um novo mandato, criou uma situação diferente tanto em seu trabalho como também na tarefa dos que o enfrentavam.
Pela boca-de-urna divulgada logo após o término da votação, o presidente Fernando Henrique Cardoso e alguns governadores conseguiram a reeleição já no 1º turno. Todavia, também é possível perceber outras situações: ao que tudo indica, em Santa Catarina haverá novo governador, com o postulante Espiridião Amin liquidando de imediato a fatura. Em outros Estados, há equilíbrio e muitos governadores terão de lutar no 2º turno. E pelo que parece, haverá também os que sequer terão a possibilidade da nova disputa.
Dizer que a derrota de alguns governadores representa a exceção que confirma a regra não parece configurar uma visão correta. O que se pode sentir é que o simples instituto da reeleição não é garantia de vitória. Sem dúvida, tanto o presidente quanto os governadores entraram na campanha com grande vantagem. Primeiro porque, naturalmente, eram candidatos a partir da aprovação da emenda que garantiu a possibilidade de reeleição, enquanto os seus adversários só puderam lançar-se em campanha depois das convenções.
Na campanha, os titulares de Executivo estavam em vantagem também porque o próprio cargo os coloca em evidência. A oposição, tanto no plano federal como nos Estados, até que tentou, com numerosos recursos, compensar esta dificuldade. Mas não teve sucesso exatamente porque os chefes de Executivo em exercício dos respectivos cargos tinham sempre a justificativa do trabalho natural que deviam executar em função dos mandatos. E que isto foi benéfico para quase todos eles se percebe pelos resultados que se conhece, notadamente o relativo à Presidência da República.
O clima diferente da campanha e do próprio pleito, porém, não muda a realidade de uma eleição tranquila, realizada com a maior liberdade, um atestado da maturidade do povo. Certamente, faltam ainda os números finais relativos não só aos chefes de Executivo, mas aos componentes dos Legislativos. Persiste ainda um temor sobre o volume dos votos em branco e nulos, que vem crescendo nos últimos pleitos e que já deveria constituir uma real preocupação dos políticos e dos governantes. Normalmente, às vésperas dos pleitos, são feitas campanhas intensas para que o eleitor não só vá às urnas (até porque isto é obrigatório), mas no sentido de que vote válido. Entretanto, isto é pouco, principalmente diante dos escândalos que se sucedem, da desmoralização dos próprios políticos.
A luta contra o voto nulo e em branco não é tarefa de véspera de eleição. Na verdade, começa agora, com a eleição de novos Legislativos, além dos governadores, senadores e presidente. Do comportamento dos que ganharam ontem o mandato depende não só o futuro do país, mas também a situação da própria democracia. O eleitor falou, agora é a vez de os políticos se mostrarem dignos do voto recebido.





