Editorial - O poder do voto
Faltando pouco menos de um mês para as eleições, preocupa observar que grande parte do eleitorado está ainda desligada do processo. O total de indecisos, inclusive em relação aos pleitos majoritários (presidente, governador e senador), é elevado demais e o número dos que confessam que vão votar em branco ou anular o voto é, no mínimo, assustador. Pior ainda é o que acontece com as chamadas eleições proporcionais (deputado federal e estadual). Não apenas é grande o total dos que declaram taxativamente que pretendem votar em branco ou anular o voto, como também é ponderável o número dos que consideram o Poder Legislativo dispensável, sem contar os que pregam, abertamente, contra os políticos de modo geral.
É inegável que muitos políticos têm grande responsabilidade sobre esta situação. Os abusos que têm sido denunciados, a corrupção de parlamentares, completada pela omissão dos membros de Legislativos, que muitas vezes têm absolvido seus pares apesar de todas as provas existentes, a avidez de muitos que aprovam aumentos em seus vencimentos (como se tem visto nos últimos tempos em numerosas Câmaras Municipais), tudo isto acaba servindo como combustível para se pensar o pior do Legislativo como um todo. Com isto, infelizmente, não perdem apenas os políticos, não se desprestigia somente um poder, mas toda a estrutura democrática fica ameaçada.
A importância do voto não pode ser diminuída precisamente nesta hora, quando o Brasil vive um período de liberdade e consciência como raramente se teve ao longo de toda a História. Mais ainda, é vital lembrar que foi através do voto que o povo brasileiro conseguiu superar e vencer um regime totalitário que parecia indestrutível. Com efeito, a grande reação do eleitor brasileiro nos anos 70, enfrentando a ditadura, superando os casuísmos através dos quais o regime totalitário teimava em se perpetuar no poder, representa o maior atestado do poder do voto. A queda da ditadura militar que se implantou em 64 ocorreu, principalmente, pela ação consciente do eleitorado brasileiro, que foi, com o voto, solapando o totalitarismo. O crescimento da oposição consentida no Congresso e nas Assembléias Legislativas marcou a grande virada, que acabou se consolidando quando, depois da derrota da campanha pelas diretas para a Presidência, o candidato do regime acabou derrotado nas eleições indiretas impostas precisamente para perpetuar o arbítrio.
Não fosse a grande luta de alguns políticos sérios, corajosos, de brasileiros que foram até ao sacrifício pessoal, acompanhada pela atuação dos eleitores ao longo dos anos, a ditadura não teria sido superada, no Brasil, sem sangue, dor e sofrimento. Lembrar estes fatos é importante não apenas para manter viva a memória dos que lutaram contra o totalitarismo, mas também para se solidificar a democracia pela participação plena do eleitor em todos os níveis do voto. Se há de fato políticos corruptos, se existem aqueles que se mostram, no exercício do mandato, indignos da confiança recebida, isto não é motivo para se anular votos, para votar em branco. Ao contrário, o eleitor tem o direito, mais que o dever, de ficar atento, votando sempre, rejeitando os que foram infiéis e tentando sempre até conseguir formar legislativos dignos.
Esta tarefa é privativa do povo, que não pode omitir-se, sob pena de ser de novo escravizado pela ditadura. Criticar os políticos é natural, justo e necessário. Não votar nos corruptos, aproveitadores, indignos, é certo. Mas votar, escolher, insistir na busca dos melhores é o caminho para manter a democracia.





