Editorial - O plano de FHC
O plano de FHC
Em situações como esta que o Executivo Federal vem enfrentando, com uma terrível queda de prestígio, manifestações, protestos se multiplicando e a oposição ganhando espaços, é tremendamente tentadora a idéia de se lançar projetos fantásticos, não apenas para reverter as perspectivas negativas mas como um modo de mostrar presença. O anúncio feito pelo presidente Fernando Henrique Cardoso de um Plano Plurianual, formalizado ontem, que deverá criar 8 milhões de empregos no País, surgindo precisamente sob tais circunstâncias, acaba por criar expectativas e dúvidas. As coisas ficam ainda mais nebulosas diante da postura do presidente, que condicionou o alcance desta meta à tranquilidade política. Todavia, sempre fica uma impressão de que este programa pode ser apenas uma tentativa de evitar novas manifestações e protestos.
É inegável que o Brasil precisa de soluções urgentes para alguns de seus problemas. A intensa preocupação com a estabilidade da moeda deixou em plano secundário outras questões. Não se desconhece que a luta para conter a inflação, ainda mais no patamar que aquele fenômeno havia atingido no Brasil, acabaria por produzir alguns danosos efeitos colaterais no plano social. Por outro lado, com a simples redução dos índices inflacionários a níveis mais civilizados houve uma melhoria importante na situação de alguns milhões de desamparados e a balança na primeira etapa da luta da estabilização acabou ficando equilibrada. Mas ultimamente os problemas se multiplicam. O desemprego representa hoje o grande pavor para ponderável parcela da população. As deficiências em setores vitais como saúde, educação e segurança provocam mais traumas. Prevalece uma impressão de que o governo, em todos os níveis, perdeu até a sensibilidade para a tragédia que visita milhões de brasileiros.
Um projeto de impacto sem dúvida é tentador. Mas é também perigoso, na medida em que abre expectativas que, neste momento, não podem ser frustradas. Até agora, todo o programa de estabilização da moeda foi realizado de modo simples, sem impactos, e com resultados. Os brasileiros mostraram, ao longo do período, que têm suficiente amadurecimento para enfrentar os sacrifícios e entender as metas de projetos como este. O resultado da campanha eleitoral de há pouco menos de um ano, com a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno, evidencia isto. Infelizmente, decisões adotadas logo no início do segundo mandato, notadamente a desvalorização da moeda (era necessário, mas o Executivo durante a campanha havia insistido em que não o faria) criaram uma situação complicada. E embora as consequências das medidas tomadas então tenham sido menos graves do que o esperado, é certo que houve um aumento profundo na falta de confiança do povo em relação ao presidente e a seu governo.
Não há quem, dentro ou fora do governo federal, desconheça a necessidade de um redirecionamento na ação econômica. Este é talvez o ponto principal para que haja uma reação natural ante as dificuldades que boa parte da população enfrenta. É preciso que se adotem medidas capazes de promover um rápido aquecimento da economia, o que se pode fazer sem criar pressões inflacionárias. O Avança Brasil (este é o nome do projeto que o presidente anunciou) é, no dizer dele, um programa de visa estimular o desenvolvimento do País. É precisamente isto o que se reclama. É também uma iniciativa possível, apesar de todas as dificuldades que o governo enfrenta. O que o Brasil espera é que funcione.





