O excelente valor obtido pela privatização da Companhia Paulista de Força e Luz e a recompra de dólares pelo Banco Central para impedir que a cotação da moeda americana caísse ainda mais, após a especulação altista da semana passada, são excelentes indicadores de reversão do estado convulsivo em que se encontrava o mercado financeiro e mobiliário até a última quinta-feira. Paralelamente, a taxa de inflação em São Paulo, indicadora da tendência nacional, de 0,22% em outubro, mostra que a taxa anual brasileira deverá fechar em no máximo 5%, resultado melhor que o projetado no final do ano passado.
Em outras palavras, a assombração da semana passada desapareceu. Talvez ainda aconteçam novas aparições, mas as chances de assustar o mercado serão menores. Teoricamente, ninguém se assusta duas vezes do mesmo jeito com a mesma coisa. Além do mais, o dinheiro que o FMI e alguns países estão despejando no Sudeste asiático para estabilizar as economias emergentes da região dará segurança de sobra contra os especuladores.
No Brasil, não será surpresa se os juros cederem em poucos dias. De qualquer modo, os reflexos na inflação devem ser pequenos, pois a conjuntura econômica não facilita aumentos de preços. Não há demanda reprimida e tendência é de contenção no consumo para evitar compras a prazo. A procura por automóveis, por exemplo, caiu em função das novas taxas de juros. Isto não muda os preços a prazo, mas os preços à vista podem ficar mais baratos para compensar a redução das vendas a prazo. A inflação, assim, até cairia, em vez de subir.
O comércio teme um fim de ano pior que o do ano passado, mas ainda é muito cedo para fazer afirmações. Basta que os fabricantes e os vendedores reduzam suas margens para estimular as compras à vista, e o quadro será totalmente diferente. De quebra, a inflação também cairá. Evidentemente, nada disto acontecerá e o futuro será negro se o período de juros altos - na estratosfera, em palavras mais exatas - estender-se por tempo indeterminado. Aí, sim, haverá recessão e mais desemprego.
No momento, a percepção geral é de que a atual taxa de juros é de curta duração. Nem o próprio Governo pode mantê-la porque aumentará drasticamente suas despesas com o serviço da dívida.
No frigir dos ovos, o Brasil saiu menos chamuscado do que se temia. Mas as consequências do incêndio serão ainda menores e o futuro mais seguro se tudo o que aconteceu servir para desatolar as reformas estruturais que estão paradas no Congresso e no próprio Governo. A fragilidade do Estado brasileiro é um foco de crises em potencial. O capital nacional e os partidos políticos fazem de conta que essas fragilidades não existem, mas o capital internacional não se engana.

mockup