Editorial - O PIB e as projeções
A preocupação provocada pelos dados preliminares divulgados pelo IBGE a respeito do crescimento do PIB brasileiro em 98, é natural, não só porque é o pior resultado observado pela economia nacional em quase toda a década, mas também por indicar claramente um empobrecimento geral do País. Todavia, é importante perceber que este índice era previsível diante do desempenho da economia nacional ao longo de um ano particularmente difícil, marcado pela crise deflagrada pela Rússia e que provocou novas e duras medidas por parte do Governo. O ano de 98, deve-se recordar, começou já sob os efeitos das dificuldades da crise asiática, com o País enfrentando o pacote de novembro de 97 e tentando se reequilibrar. As dificuldades subsequentes, incluindo aí a moratória russa e todas as sequelas disto resultantes teriam de apresentar como resultado este reduzido crescimento do PIB, 0,15%.
A divulgação destes números agora, quando o País enfrenta outra crise, esta provocada pela desvalorização do real, cria uma situação psicológica ainda mais adversa. A população enfrenta problemas, o desemprego está crescendo, os preços em geral sobem, anuncia-se o retorno da inflação - as projeções apontam para algo em torno de 10% neste ano, o que é alto para uma economia que busca a estabilidade - e é quase natural que o anúncio de que o Brasil ficou mais pobre em 98 (é preciso entender que quando o PIB sobe menos que o crescimento da população, como é o caso dos números do IBGE, isto indica queda geral da economia) provoque mais sustos. Para colaborar com isto, os alarmistas de plantão já antecipam que 99 vai ser ainda pior.
Sabe-se que as previsões, em qualquer atividade humana, se baseiam nos fatos existentes. Assim, se o PIB apresentou o pior desempenho dos últimos tempos e se a situação econômica continua grave, é aparentemente fácil prever que as coisas vão piorar. Entretanto, é preciso levar em conta todas as variáveis para que se chegue a uma projeção válida. A crise deste começo do ano é, em certo sentido, consequente dos problemas do ano passado. Mas os obstáculos atuais podem sinalizar para um outro quadro. Isto é perceptível diante da realidade atual. O Governo adotou, neste começo do ano, uma diretriz diferente da que vinha seguindo nos últimos quatro anos. A desvalorização do real, reclamada por muitos setores há tempos, constitui uma verdadeira mudança de rumos. Em certo sentido, é uma resposta até às dificuldades que produziram este preocupante resultado do PIB.
A conclusão, portanto, não precisa ser necessariamente tão alarmista. De fato, com a desvalorização do real, que ameaça trazer de volta a inflação, há outras importantes consequências: o Brasil poderá incrementar suas exportações, até porque amplia a competitividade de seus produtos, e ao mesmo tempo terá de reduzir as importações. Vai melhorar o desempenho econômico, abrem-se perspectivas para aumento na produção, com todas as consequências positivas disto decorrentes. Importantes segmentos da indústria, que perderam terreno ao longo de 98 (o que ajudou ao mau resultado do PIB) poderão - e alguns já estão sentindo este efeito - recuperar posições no mercado. Apesar das dificuldades atuais, as perspectivas não são tão sombrias quanto alguns alarmistas parecem supor.
O que é preciso é que as autoridades econômicas percebam que precisam agir com firmeza no estímulo a esta perspectiva de crescimento. Uma medida que ajudaria muito seria a redução nos juros. Esta seria, sem dúvida, a grande alavanca para mudar de fato as perspectivas e dar ao País condições para superar este difícil momento.





