EDITORIAL - O pesadelo dos aliados
Os países aliados dos Estados Unidos gostariam de amanhecer sem o pesadelo de ter que assumir uma posição, diante do estado de guerra que neste momento envolve o mundo. E também não é cômoda a situação dos países contrários, estes em posição ainda mais delicada, pois são os alvos diretos dos ataques que poderão ocorrer.
Os tradicionais parceiros sabem que uma recusa a qualquer pedido dos EUA poderá significar boicotes econômicos, imposição de barreiras comerciais, rompimento de intercâmbios e outras formas de isolacionismo. Não se sabe até que ponto os Estados Unidos poderão manter uma tal posição, no caso de uma resistência em bloco, mas é certo que, embora as nações aliadas já tenham manifestado alguma reserva contra ataques totais que atinjam as populações civis, é improvável que uma negativa de cooperação ocorra.
Assim, nenhum governo se encoraja a ser o primeiro a negar apoio, porque todos, em verdade, temem indispor-se também entre si e sofrer fissuras nas relações diplomáticas. A situação é delicada, também, porque todos esses países amigos dos Estados Unidos abrigam imigrantes islâmicos, que têm parentes e outros vínculos em seus países de origem e que agora estão na mira do ataque americano.
Os governos dessas nações parceiras podem concordar, pressionados pela imposição externa, mas encontram a resistência das populações internas, e isso criará um clima de revolta e de intranquilidade social. Ademais, ninguém está disposto a enviar seus filhos para morrerem em combate numa guerra que, diretamente, não lhe pertence.
O florescimento do terrorismo no mundo ocorreu, tão somente, por causa de políticas unilaterais de uma só nação: os Estados Unidos. Os reflexos dessas políticas exercem influência sobre todo o mundo e também levam nações a se indisporem contra nações. O mundo está à mercê de uma única potência - o que é uma forma de terrorismo - contra a qual ninguém tem disposição de se insurgir.
Só os terroristas ousam desafiar a poderosa nação americana, e esta é a razão da tamanha ira de que é tomada toda a população dos EUA e que a coloca de pé e à ordem, pronta para contra-atacar, a qualquer preço. O revide reacende também a fúria dos grupos terroristas, que não agem movidos pelo mórbido prazer de destruir e matar - eis que não atacam nações pacíficas - mas sim por ideais políticos.
O revide sobre o Afeganistão, que os Estados Unidos ensaiam sem mesmo saber se cabe a esse país alguma culpa pelos atentados de Nova York e Washington, nem se foi o megaterrorista Osama bin Laden o autor intelectual do que acaba de acontecer, significa que a população civil também será atingida, e isto é tão insano quanto as ações terroristas. Ambas as formas de combate são condenáveis, porque onde entra a espada faliu a palavra.
Os EUA entram numa guerra e querem arrastar nela o mundo inteiro, mas todos sabem que o terrorismo não será extinto mesmo que todos os seus atuais ativistas sejam destruídos, eis que as causas não estão sendo atacadas. Os caminhos da sensatez apontam para a mesa das negociações, e nada se resolverá se não houver disposição para concessões, de parte a parte.





