Informado por um de seus generais sobre as fortes críticas do hoje papa João Paulo II à violência do regime soviético, o todo poderoso ditador comunista Josef Stalin teria perguntado: ‘De quantas divisões (unidades militares) dispõe o Papa?’. Era mais uma reafirmação da prepotência de um tirano que ordenou a morte de mais de 50 milhões de pessoas, número que transforma um fanático como Adolf Hitler num aprendiz de matanças coletivas. Todavia, sem divisões, sem força militar, sem armas nucleares, o padre Karol Woyitila, depois bispo, cardel e finalmente papa, mostrou-se mais poderoso do que Stalin, Hitler e seus similares.
João Paulo II é, indiretamente, um dos grandes responsáveis pela inacreditável transformação política que este fim de século está vivendo. Foi decisiva sua atuação na queda do comunismo na Polônia e é certo que ao Sumo Pontífice da Igreja Católica devem também ser atribuídos ponderáveis créditos pelo que ocorreu em seguida, com o esboroamento do aparentemente indestrutível bloco soviético. Suas viagens pelo mundo e sua luta diplomático-religiosa cumpriram um papel de relevo.
Cansado, alquebrado, sofrendo as consequências de um tiro que lhe trespassou o intestino e por milagre não lhe tirou a vida, João Paulo II tem conseguido se manter firme e lúcido em sua cruzada pacífica, levando ao mundo uma mensagem renovada e eterna, e, principalmente, redespertando nos seres humanos os mais elevados anseios que conduzem, como um resultado natural, à luta pela liberdade.
Hoje, João Paulo II desembarca em Cuba, um dos poucos países do mundo que ainda não havia visitado, um dos últimos redutos do comunismo no planeta. E chega a convite do líder que derrubou uma ditadura em Cuba e implantou outra. Fidel Castro é o mais antigo governante em atividade no continente. Tem a seu favor a derrubada de um regime totalitário sangrento e abusivo, como o era o de Fulgêncio Batista, e o restabelecimento da dignidade do povo cubano, então vassalo da jogatina e da prostituição promovidas por gangsters americanos na bela ilha do Caribe.
Contra si, Fidel tem seus próprios crimes, seus erros e uma vaidade sem limites, o que inclui o desejo explícito de permanecer a vida toda no poder, seja qual for o tipo de morte que o aguarda. É este Fidel que não é fiel ao catolicismo e não tem nada de santo que convidou o papa a visitar Cuba. Parece contraditório: é o comandante de um regime reconhecidamente ateu chamando para uma visita o líder mundial de uma das maiores religiões da Terra. Mas a História humana não se faz sem contradições.
Explica-se. Triunfo pessoal do papa, esta visita a Cuba serve também a uma estratégia do próprio Fidel. Cuba conseguiu sobreviver ao boicote dos Estados Unidos graças ao apoio que recebeu da União Soviética e com sua extinção, ficou órfã de pai e mãe. Ao tentar o apoio da Igreja, Fidel busca uma alternativa para seu regime. O Vaticano gosta da idéia porque assim pode aumentar seu rebanho num país de povo místico e religioso. E aposta em mudanças políticas no futuro, pois o cristianismo supõe o respeito à dignidade humana, sendo que a liberdade de religião é apenas um começo.
Cuba não será mais a mesma, após esta peregrinação do papa. Não haverá revoluções, como, na verdade, não houve nada disto na Polônia ou nos outros países comunistas ou na própria União Soviética. Mas a semente da fé, que se mostra sempre mais forte que as divisões militares dos ditadores que atravessam a história, promete mudanças drásticas na pequena ilha do Caribe.

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