Editorial - O país dos escândalos
Logo em seguida à redemocratização começaram a ser veiculadas pela imprensa notícias relativas a atos de corrupção, notadamente na esfera do Poder Legislativo, que chegaram a impressionar. Eram tantas as denúncias que a impressão inicial era a de que o Brasil, recém-voltado à democracia, havia se convertido em um imenso lodaçal. A verdade era outra, porém. Corrupção, infelizmente, sempre existiu. Mas em períodos totalitários era impossível sequer detectá-la. E mesmo quando isto ocorria, não havia como denunciá-la, inclusive porque o regime ditatorial, entre outras coisas, estabelecia uma rede que impedia a liberdade de imprensa. Com a volta à democracia e o restabelecimento, principalmente, da liberdade dos órgãos de imprensa, foi possível começar a descobrir e denunciar os abusos.
Repentinamente, recomeçam no Brasil as denúncias abrangendo os mais diferentes setores. Não se trata mais apenas do Legislativo Federal, que ainda não está totalmente depurado, mas também de outras áreas. Há informações chocantes sobre um verdadeiro loteamento que parece ter sido feito, na capital paulista, revelando-se uma cadeia inacreditável de atos lesivos à população, com enriquecimento ilícito de alguns poucos políticos, na maior parte estabelecidos na Câmara Municipal, na Assembléia Legislativa e na administração municipal. Em Londrina, toda a diretoria da Autarquia do Meio Ambiente foi afastada, iniciando-se uma investigação. A CPI do Judiciário, que mal se iniciou e que tem sido alvo de muitos questionamentos, já começa a revelar algumas irregularidades envolvendo juízes. E há também a investigação sobre o Banco Central, com a CPI de um lado e trabalho da Justiça Federal de outro. E de todos os lados surgem informações estarrecedoras sobre abusos que implicam pessoas estabelecidas nos mais altos escalões e que deveriam estar acima de qualquer suspeita.
O que se pode concluir desta situação é que a corrupção instalada no país não foi ainda vencida, apesar de a redemocratização já ter ocorrido há cerca de 15 anos. Na verdade, nem poderia ser diferente. O Brasil viveu durante 21 anos sob um duro regime autoritário que acabou também servindo para que muitos aproveitadores se locupletassem com o dinheiro público. Acabar com a ditadura foi difícil, mas é certo que ainda é muito mais complicado superar os vícios que ela produziu e liquidar com os que tiraram proveito daquele período e conseguiram, além de tudo, criar instrumentos para manter as vantagens e benefícios que usufruíram ao longo do período totalitário. Não somente persistem alguns velhos vícios, como também há os que insistem em transformar a coisa pública em propriedade privada, sem pudor ou dúvidas.
É triste a história deste Brasil que completou ontem 499 anos desde a descoberta. A rapina fez parte da vida deste país desde os primeiros tempos. Os piratas começaram a furtar o pau-brasil tão logo se percebeu que a terra era rica daquele vegetal, que acabou até dando nome ao país. A rapinagem se fez de muitos modos. Ouro e pedras preciosas, encontradas durante a fase do Brasil Colônia, não ficaram por aqui. Mesmo quando, em setembro de 1822, o país se tornou independente, a pilhagem prosseguiu, oficial ou extra-oficialmente. Com a República, acabaram os privilégios da Monarquia e dos nobres, mas foram criados outros, embora todos tenham passado a ser iguais perante a lei. Mesmo com eleições, muitos dos que conquistavam o poder pelo voto sentiam-se mais como donos, persistindo até hoje na exploração e no abuso. Revelar isto, é parte do processo. A consciência de cidadania exige mais: quer a punição e o fim desta sangria que empobrece e envergonha o País.





