Editorial - O otimismo de FHC
Em uma entrevista radiofônica, o presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou ontem que a crise financeira foi um susto, e que o pior já passou. FHC mostrou-se otimista depois da crise que levou o Brasil a pedir um empréstimo de US$ 41,5 bilhões ao Fundo Monetário Internacional (FMI), em troca de um ajuste fiscal severo e de um arrocho para os 165 milhões de brasileiros. Disseram que o Brasil não ia conseguir (atravessar a crise), que os mercados haviam perdido a confiança. Estavam nos comparando com outros países que não quero mencionar. Houve uma turbulência, nós levamos um susto, o dólar subiu às alturas, mas depois começou a descer, declarou. Depois disseram que a inflação ia subir. A inflação não subiu... Não houve uma quebra generalizada e o Brasil não parou de pagar nenhuma de suas dívidas. O presidente concluiu dizendo que a economia brasileira, apesar de todos os sustos e turbulências, segue forte. E você sabe por quê?, perguntou, respondendo ele mesmo: Porque o povo não aceitou a inflação.
É importante ver que o chefe da Nação se mostra confiante e otimista, ainda mais depois de um período muito complicado como o que foi vivido a partir da desvalorização do real, em meados de janeiro. Foi uma fase difícil, agravada pela especulação e por uma atuação desestabilizadora em vários setores. O Brasil, como enfatizou o presidente, superou a crise mas não porque o governo tenha tido uma participação plena, mas, como o próprio presidente observou, porque o o povo não aceitou a inflação. Este é o grande fator que deve ser unido a outro que não pode ser esquecido, nem posto de lado: existe uma forte recessão, há desemprego real, as dificuldades para boa parte da população são grandes. Uma das razões para o povo não ter aceitado a inflação é o fato de a maioria não ter como enfrentar uma onda de carestia. O mercado funcionou como não havia ocorrido antes, quando a economia brasileira estava em ritmo caótico: a alta não foi absorvida, houve queda na procura e, então, os preços recuaram.
Ocorre, porém, que a situação não está controlada, como pretende o presidente. Este é outro equívoco perigoso. Ainda há dificuldades muito sérias pela frente, algumas impostas pelas próprias autoridades. Com efeito, enquanto a população luta contra as altas de preços nos mercados, o governo continua a anunciar reajustes: a gasolina vai subir de novo, o mesmo devendo acontecer com a energia elétrica, conforme anúncios feitos esta semana. Parece até uma brincadeira de mau gosto: a inflação não subiu, como se temia, mas o governo insiste em elevar preços, principalmente de fatores que pesam sobre tudo o mais. Já quando começou o plano de estabilização da economia, o grande vilão na alta de preços foi o governo, que corrigiu os valores que controlava, sem qualquer pudor. Agora, diante de novas dificuldades, o governo continua a agir sem levar em conta o que deveria ser seu maior objetivo, o de manter a estabilidade da moeda.
Para completar o quadro, em outro pronunciamento o presidente informou que o salário mínimo será reajustado em maio, conforme a variação da inflação. E lembrou, matreiramente, que a inflação foi muito baixa nos últimos 12 meses e está em refluxo agora. É parte da verdade. Com as altas que se antecipam, com a falta de participação oficial efetiva na luta pela estabilização, o assalariado vai ser novamente sacrificado. O povo tem enfrentado dificuldades há décadas. Mas parece que está na hora de o governo deixar de usar artifícios de linguagem e passar a agir em função dos interesses e necessidades deste povo.





