O novo mínimo
Os mais de 5 anos de vigência do plano de estabilização não foram suficientes para mudar ainda a mentalidade econômica em muitos setores, assim como também não garantiram o fim da demagogia a respeito de determinados assuntos, entre eles o do salário mínimo. Faltando ainda algum tempo para a definição oficial sobre o valor, fins de abril, e embora o Executivo tenha insistido em apelos para que a questão começasse a ser debatida à época, as discussões e propostas pipocam por toda a parte, envolvendo políticos e lideranças sindicais. E, de um modo geral, salvo algumas poucas e inteligentes colocações, como as do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, o que se tem ouvido e lido são colocações que praticamente não escondem um caráter de exploração político-demagógico, que não serve senão para criar expectativas difíceis de se realizar ou para complicar um quadro relativo ao trabalho e ao salário que por si já é complexo.
Em entrevista recente, o presidente do Banco Central Armínio Fraga afirmou que o País precisa continuar investindo na educação, construindo as bases para a economia crescer, o que produzirá, como resultado, melhoria no bem-estar, e valorização real do salário da população. Fraga assinalou ainda que é uma ilusão pensar que vai ser possível conseguir melhorar o padrão de vida do brasileiro por decreto. No entendimento do presidente do BC, é necessário que a economia continue nos trilhos: os fatos econômicos, assinalou, começam a apontar na direção desejada e as grandes restrições ao crescimento enfrentadas nas décadas de 80 e 90, ligadas às várias transições políticas e econômicas, estão sendo superadas, o que permite ao Brasil condições reais de progresso. Para Fraga, o País precisa de competição, poupança, investimento e inovação, fatos que naturalmente vão contribuir para aumentar o salário de todos os trabalhadores.
As propostas relativas ao novo mínimo, que vão desde a idéia de fixá-lo em 100 dólares, até a outra agora formulada pela CUT, sugerindo que o valor passe à casa dos 160 dólares (o que representaria hoje 283 reais, um reajuste de 108% sobre o valor vigente), evidenciam posturas similares às de tempos anteriores, sem qualquer ligação com toda a realidade econômica, inclusive com a questão salarial. Podem até dar a impressão de uma preocupação real com a situação do povo e com a necessidade de se valorizar o trabalho, através de uma remuneração adequada. Mas sempre evidenciam um distanciamento do problema efetivo, que vai além do valor em si da remuneração, devendo chegar a um outro e importante termo, relativo ao poder aquisitivo do salário.
Durante o caótico período da inflação exacerbada, o salário se aviltava a cada dia e por mais que ocorressem correções, o poder de compra do que o trabalhador ganhava ia decaindo a cada mês. Sabe-se que atualmente o mínimo não atende sequer ao que está estabelecido na Constituição, não garantindo a subsistência de uma família. Seguramente, não será um reajuste de 108%, como pretende a CUT, ou até um aumento maior que irá resolver o problema, até porque é preciso notar a ligação do salário com o custo de vida. Uma alta como a pretendida, acabará gerando um efeito cascata, similar ao já vivenciado pelos brasileiros em anos recentes, com uma não desejada retomada inflacionária e todas as consequências danosas para a economia, com os efeitos piores atingindo desde logo a faixa mais carente da população.

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