Nesta, mais do que em qualquer outra época do ano, forma-se um clima de mais sensibilidade entre as pessoas. Não é apenas a questão do presente a ser dado ou a ser recebido. Proliferam as campanhas de solidariedade, multiplicam-se os movimentos visando socorrer os carentes. Campanhas como ‘Natal sem fome’ são comuns e garantem para milhões de marginalizados uma situação menos dramática nestes dias em que os cristãos festejam o nascimento de Jesus, os judeus celebram o ‘Chanuká’, também com presentes e alegria, e os muçulmanos vivem o Ramadã, com orações, meditação e muito espírito religioso. Há um sentimento diferente a cercar a ocasião, fazendo crescer, mais ainda nestes últimos tempos, o sentido de fraternidade humana. E este sentimento é tão intenso que não poucos, entre os votos que trocam nesta fase do ano, desejam que o Natal não fosse comemorado apenas numa data. Bom seria se todos os dias os seres humanos pensassem uns nos outros com o espírito de fraternidade que perpassa esta época.
Acontece que o espírito de Natal passa rapidamente e, em seguida, o clima volta a ser o costumeiro, com a fome, a miséria, o sofrimento não apenas fazendo parte da vida diária, mas sendo também aceito passivamente tanto pelos que sofrem com estes males (em muitos casos até por falta de opções), quanto pelos que se emocionam no Natal, mas se endurecem no resto do ano. O clima de fraternidade não permanece junto aos que, cinicamente, consideram que a miséria é parte integrante da vida humana. Há até os que lembram o próprio Jesus quando, em certo momento, afirmou que ‘pobres vocês sempre vão ter’, o que, para os que olham para o outro lado diante da fome alheia, é uma justificativa natural sobre as incompreensíveis desigualdades deste mundo.
Em verdade, durante muito tempo, persistiu o sentimento segundo o qual a pobreza, a desnutrição, a miséria de boa parte da população do mundo constituía uma situação insuperável. Estudiosos do assunto chegaram a afirmar que o problema era insolúvel, argumentando que se todos os alimentos produzidos pelo homem fossem divididos igualmente pela população da Terra, todos passariam fome. Quer dizer, não era uma questão de distribuição, mas de inadequada produção. Entretanto, segundo a nova ‘Carta Mundial da nutrição e da desnutrição’, divulgada na semana passada pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), a realidade é outra. ‘‘No planeta há alimentos em quantidade suficiente para nutrir o mundo inteiro, mas não estão distribuídos equitativamente e muitas pessoas não têm meios para comprá-los’’, destaca Hartwig de Jaen, subdiretor geral da FAO e chefe do Departamento Econômico e Social da Organização naquele documento.
Esta informação coloca toda esta questão sob um novo ângulo. Embora hoje o mundo tenha um contingente populacional como jamais existiu ao longo da História e apesar de as previsões indicarem que o número de habitantes do planeta continua crescendo, a Terra tem condições de alimentar todos quantos palmilham este corpo que vaga ao redor do Sol. O que falta é a conscientização global, o esforço real, a efetiva realização do sonho dos que querem que o espírito de Natal alcance o ano todo e o mundo inteiro. A miséria terrível no Sudão ou em outros países africanos, a fome dos milhões de brasileiros atingidos pela seca, a tragédia da miséria total de tantos marginalizados pode ser resolvida. Depende só de se transformar o Natal em uma celebração de todos os dias.

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