Editorial - O mínimo que o povo quer
Para boa parte da população, os dias do Carnaval servem como um meio de extravasar alegrias e frustrações. Outros, aproveitam para viajar ou descansar. Para os que têm a responsabilidade de conduzir o Brasil, nos Executivos ou nos Legislativos, a paradeira quase obrigatória provocada pelo Carnaval poderia ser usada como oportunidade de meditação a respeito do que estão fazendo e do que devem realizar pelo país do qual receberam, cada um a seu modo, o encargo de ocupar cargos de governo.
Dizem muitos que o Brasil pára antes do Natal e só volta a funcionar depois do Carnaval. Diante da verdadeira avalanche que se precipitou sobre o país no primeiro mês deste já considerado duro 1999, é possível que muitos até gostariam que isto fosse verdade e que a violenta carga que atingiu o Brasil não tivesse se concretizado. Há, porém, uma realidade inegável a ser enfrentada depois do Carnaval, naturalmente, e que reclama posturas mais concretas, honestas e, por que não repetir, patrióticas, por parte dos que ganharam votos para levar seus Estados e o Brasil a uma situação melhor.
A crise nacional é séria e complexa. Entretanto, constitui apenas um desafio a mais para um povo que já superou muitas adversidades e sente seu potencial e as possibilidades efetivas de passar por esta fase também. E é importante repetir que falta apenas que haja por parte dos que governam a mesma disposição evidenciada pelos brasileiros. O quadro que se observa é claro: empresários e trabalhadores têm se unido para superar as dificuldades. Muitas propostas inteligentes e construtivas têm sido formuladas e levadas pelos segmentos produtivos, aí incluídos os trabalhadores, aos governantes. O que tem faltado, infelizmente, é a resposta objetiva dos políticos, muitos aparentemente mais preocupados com suas próprias necessidades do que com os interesses do país.
O caminho para o Brasil superar as atuais dificuldades não é fácil. Isto a população reconhece e não tem fugido aos sacrifícios. Tem-se percebido, inclusive, que a disposição da maioria continua a melhor possível. Os brasileiros estão lutando em várias frentes, seja enfrentando a especulação e o abuso, nos supermercados ou lojas, seja trabalhando como podem ou até criando alternativas neste momento de falta de empregos. O mercado informal continua a crescer, o que se é ruim do ponto de vista da geração de impostos apenas revela a disposição de muitos de encontrar soluções para suas dificuldades. Mas o que salta aos olhos é que as coisas poderiam ser menos difíceis para este povo se houvesse a contrapartida efetiva dos que governam e decidem.
Já passou da hora de se acabar com o desfile de vaidades, com os exercícios de xenofobia regional que parecem fazer parte dos objetivos de alguns políticos que se mostram esquecidos de suas responsabilidades, priorizando quireras pessoais em vez de buscar soluções globais, visando o bem do povo que os elegeu. Não deveria mais haver lugar no Brasil para a demagogia e o populismo que já fizeram tanto mal a todos.
Governadores, deputados, o presidente, todos quantos detêm uma parcela de poder deveriam aproveitar estes últimos dias de folia e descontração para realizar uma profunda e objetiva análise de seus reais propósitos e, principalmente, de suas obrigações diante do povo. Os brasileiros já deixaram bem evidente, inclusive nas eleições de outubro do ano passado, o que querem. E não é muito: reclamam apenas condições para trabalhar e viver em paz, com o mínimo de dignidade que cada cidadão merece. Não é muito e os políticos deveriam centrar seu trabalho no atendimento destas simples reivindicações.





