Os brasileiros já viram este filme: o Governo anuncia um ‘pacote’ repleto de medidas sérias, graves e até mesmo drásticas, distribuindo apertos e sacrifícios para todos. Depois, vai amaciando e reduzindo a carga que lançou sobre seus próprios ombros, aliviando também as medidas que atingem os mais ‘amigos’, até que a conta fica só para as vítimas de sempre: os assalariados, as empresas e, no Governo, as verbas sociais, saúde inclusive.
Para não ir muito longe, foi este mais ou menos o enredo desde o Plano Cruzado, criado para acabar com a inflação, que há 10 anos era galopante, a 1% ao dia, e mais tarde catastrófica, a 3% ao dia. Já então, o responsável maior pelo Plano, ministro Dilson Funaro, insistia que o sucesso ia depender da mudança de mentalidade, inclusive internamente, isto é, no Governo. O fracasso ainda está vivo na memória dos brasileiros, assim como seu custo.
Com o Plano Real, de outra natureza e muito bem pensado, tinha-se a impressão de que o Governo, mais sério que o outro, ia afinal fazer sua parte para permitir o sucesso do programa. E isto implica, obviamente, numa ação interna forte, com cortes efetivos e profundos para diminuir o custo do Estado paquidérmico em que vivemos e o chamado custo Brasil, aquele que torna um produto brasileiro com tecnologia tupiniquim mais caro que um produto japonês com tecnologia espacial.
No lançamento do programa de estabilização o Governo se comprometia com esta idéia, anunciando um elenco de reformas estruturais para dar consistência aos cortes internos, o que incluiria demissões no serviço público, mediante a reforma da Carta de 88, a privatização de todas as estatais - menos Petrobrás e Banco do Brasil, prometia o candidato FHC - e o fim de uma série de benesses que se faz com o dinheiro público para beneficiar determinados setores.
Pois bem. O povo fez sua parte, apertando o cinto depois da primeira orgia de consumo, mas o Governo logo perdeu o entusiasmo de fazer a sua. As reformas foram ficando para depois, à medida que surgiam resistências dentro e fora do Congresso. Afinal, a inflação estava caindo mesmo sem elas e as pesquisas de opinião estavam dando nota dez para o Plano. No velho estilo brasileiro, o Governo começou a ‘empurrar com a barriga’ o que era mais difícil e a fazer estardalhaço com o que era mais fácil mexer.
Para nossa sorte - sim! - veio esta crise externa que nos tira do berço esplêndido e nos diz que o Brasil precisa ser outro não só na moeda, mas também na administração pública, nas relações trabalhistas, no sistema tributário, no sistema previdenciário etc. A crise mostra que o grande rei Brasil está nu e tem que se cobrir para não dar vexame.
E estamos de volta ao ponto de partida: o Plano Real é muito bom, é um paraíso viver sem inflação, mas tudo irá para o brejo se fizermos o serviço pesado. Por enquanto, foi só um golpe de imaginação, no bom sentido. O real é uma genialidade contábil, um pára-quedas que desce lentamente das nuvens em que estávamos e nos dá tempo de preparar o terreno para pisarmos chão firme, e não areia movediça.
O ‘pacote’ está virando manteiga e isso só é bom se medidas duradouras e profundas substituírem as medidas de emergência que estão sendo retiradas. Repentinamente, o ministro da Administração informa que os fatos não foram bem avaliados, diz que é preciso fazer outro recadastramento - evidenciando que o Estado sequer sabe quantos funcionários tem. As bancadas do Norte e Nordeste querem reduzir o corte nos incentivos fiscais dessas regiões, mas pelo menos sugerem o corte da contribuição do Tesouro aos fundos de pensão das estatais, que daria uma economia muito maior.
Mas o perigo de só restar do ‘pacote’ a parte que sacrifica os assalariados, as empresas e o povo é real. Os brasileiros não querem ver esta reprise.

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