Editorial - O medo da inflação
O medo da inflação
Pesquisa mensal realizada pela Vox Populi para a Confederação Nacional do Transporte (CNT) revela que uma ponderável parcela da população considera que a inflação já está de volta. O total dos que acreditam nisto chega a 75%, enquanto outros 14% entendem que este retorno vai acontecer. É, portanto, um índice muito elevado, que reflete apenas o que é perceptível na evolução dos preços e nas próprias tendências da economia. Ademais, é importante rememorar que inflação não é apenas um fenômeno econômico, mas envolve também um componente psicológico. E não se pode esquecer que a espiral inflacionária absurda que o país vivenciou por longas décadas não é um fenômeno muito antigo. Muitos dos vícios que a inflação criou ainda estão presentes na vida brasileira, as tendências para a especulação e a exploração não foram superadas, de tal modo que este tênue equilíbrio provocado pelos anos de estabilização pode ser facilmente rompido.
A maioria da população, conforme pesquisas, análises e a simples observação, não quer a volta da inflação. Ainda estão presentes na lembrança todas as dificuldades vividas pelo povo ao longo dos anos em que a fúria inflacionária corroía a moeda e tornava a vida de todos, notadamente dos mais carentes, muito mais difícil. Os anos recentes, com inflação baixa e declinante, e uma moeda que se mantém ainda sólida, representaram também um resgate para uma importante parte da população. Com efeito, índices estatísticos revelam que houve uma redução na faixa dos miseráveis absolutos em todo o país. Não se chegou ainda a um nível satisfatório, não se operou o resgate pleno para milhões que vivem na faixa da miséria. Todavia, os bons resultados observados nestes primeiros anos de estabilidade e as perspectivas animadoras que uma economia sem inflação oferecia, eram fatores capazes de infundir confiança numa melhoria gradativa do nível de vida de todos os brasileiros.
O retorno da inflação ameaça os avanços obtidos. Naturalmente, o fato de uma sólida maioria dizer que isto já aconteceu não é suficiente. Todavia, não se pode esquecer o fator psicológico da questão. Se cada vez mais gente acredita que a inflação voltou, é certo que a própria ação a ser desenvolvida vai servir para confirmar o fato. Quer dizer, a existência de uma forte crença sobre a possível volta do fenômeno inflacionário pode estimular esta ocorrência, mesmo que não seja esta a vontade de todos. E o que se tem visto em relação a preços e mesmo a salários confirma isto. Na pesquisa citada, a maioria já indica que o aumento de preços atingiu praticamente todos os setores. A impressão é a de que a bola de neve já começou a despencar da montanha, com todos os seus terríveis efeitos.
Lá de Cuba, onde participa da Conferência Ibero-Americana, o presidente Fernando Henrique Cardoso insiste em contestar tudo isto, reafirmando que a inflação não está voltando e que a economia se mantém sob controle. Por mais que se possa confiar no presidente (embora os índices de confiança popular nele continuem baixos), até porque ele foi o verdadeiro mentor do Plano Real, os fatos não dão a impressão de confirmar esta convicção. Ainda que se reconheça a disposição oficial de evitar esta realidade, o dia-a-dia do brasileiro mostra uma realidade muito preocupante, ainda mais porque esta eventual retomada da inflação acontece em clima de recessão, tornando muito difícil a situação da maioria. O ideal seria que o presidente, juntamente com os membros de sua equipe econômica, se empenhasse mais, buscando medidas capazes de mudar este quadro ao invés de ficar apenas desmentindo-o, a distância.





