O lugar dos brasileiros
Desde os últimos anos do século passado até a metade deste, o Brasil foi, para um incontável número de estrangeiros, um tipo de ‘‘terra da promissão’’. Eles vieram de praticamente todos os quadrantes do planeta e ajudaram a forjar aqui uma nova civilização, possivelmente única no mundo. Entretanto, as coisas começaram a mudar nas últimas décadas e o sonho de uma terra de oportunidades e riquezas foi se diluindo de tal modo que, para muitos, começou a onda do retorno. Descendentes dos japoneses, que tanto fizeram pelo Brasil, passaram a realizar a viagem ao contrário, buscando na terra dos ancestrais as oportunidades que pareciam não mais existir aqui. E quem não tinha ligações com os nipônicos, passou a buscar a sorte em outras terras, especialmente nos Estados Unidos e Canadá. O Brasil, que havia sido uma fronteira aberta para os estrangeiros, passou a ser fonte de exportação humana, perdendo um incontável número de cidadãos que não conseguia encontrar no País a possibilidade de viver decentemente.
A falta de liberdade (nos tempos da ditadura), a crise econômica dos últimos anos, a recessão que durou tempo demais: tudo se uniu e ajudou a formar o movimento inverso, de brasileiros buscando lá fora o que os imigrantes haviam encontrado aqui. No que diz respeito à política, antes mesmo da redemocratização, o então presidente João Batista Figueiredo lançou a frase histórica: ‘‘Lugar de brasileiro é no Brasil’’. Com a anistia, os exilados políticos voltaram, um deles é até o atual presidente da República. Entretanto, a economia não acompanhou a onda democrática e os menos afortunados continuavam (e continuam) a buscar em outras plagas a condição de vida que não conseguem por aqui.
Quase 15 anos depois da redemocratização e no quinto ano de vigência do programa de estabilização da economia, já está mais que na hora de se repetir, agora para todos, o brado de João Batista Figueiredo, propiciando aos brasileiros a oportunidade de voltar e construir uma vida digna. Reportagem publicada domingo, na ‘Folha’, revela o desencanto de muitos com o chamado ‘‘primeiro mundo’’ e a vontade de voltar à terra onde nasceram. O retorno já está se processando, mas ainda é grande o contingente dos que não se animam a voltar, por insegurança ou medo. E ainda existem muitos que continuam a sonhar com a vida em outros pontos do planeta, desiludidos diante das dificuldades que persistem no Brasil.
Para permitir a volta dos exilados políticos, foi preciso lançar uma lei de anistia. Agora, a fim de atrair os brasileiros que fugiram por causa da falta de oportunidades, serão necessárias medidas mais amplas, só uma lei não basta. O que se faz necessário, tanto para atrair os que deixaram o País como para evitar que o fluxo continue e, sem dúvida, para garantir a todos uma situação decente, são iniciativas capazes de proporcionar um reaquecimento econômico, pondo fim à recessão e à crise. A estabilidade da economia, que é uma realidade, pode ser considerada uma base sólida. Mas faltam estímulos aos investimentos produtivos, uma política mais coerente de incentivo ao trabalho, uma visão real de desenvolvimento que privilegie o cidadão.
O Brasil, que foi considerado por longo tempo um verdadeiro paraíso para todos, mas perdeu o encanto nos anos duros da crise, precisa resgatar a dívida social que tem em relação a seus filhos, propiciando condições para o trabalho e o crescimento econômico. Só assim irá reabrir as portas aos brasileiros e ao mundo.
As bases existem, persiste a coragem. O que falta é a vontade política dos dirigentes para que haja condições efetivas de uma vida construtiva para todos os brasileiros.

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