Dois episódios recentes revelam que a classe política brasileira ainda tropeça ao tomar decisões distanciadas da realidade de crise vivida hoje pelo País. No Paraná, a Assembléia Legislativa anunciou na semana passada a disposição de adquirir 22 novos carros, de luxo e importados, para atender os novos parlamentares, eleitos no ano passado. Valor do negócio seria algo em torno de R$ 1,6 milhão. Ficou a impressão geral de que o Legislativo pretendia, na verdade, castigar o eleitor que elegeu novos deputados. Afinal, se todos os antigos parlamentares tivessem sido reeleitos, possivelmente o povo não teria que arcar com mais essa despesa. Enquanto isso, em Brasília, o presidente do Senado, que tem feito pose de defensor da moralidade, inclusive discutindo o acordo com o FMI, está cuidando de uma nova reforma geral para a Câmara Alta. No ano passado, o Senado gastou pouco mais de R$ 7 milhões em obras, sendo que R$ 1 milhão foram para a construção de um laguinho. Para este ano, o projeto é gastar outros R$ 8,8 milhões, boa parte para ampliar o lago, o que implicará na necessidade de construir um estacionamento subterrâneo. Um projeto, informam, fantástico, que deverá ser realizado o mais rápido possível.
Esses, como tantos outros casos, deixam evidente uma verdadeira insensibilidade por parte dos que foram eleitos para governar o País, mas que, pelo visto, se dissociam da realidade nacional e resolvem adotar medidas em benefício direto ou outras de evidente inutilidade. A alegação de que esses gastos são feitos com verbas específicas do Legislativo não pode nem sequer ser aceita. Se os recursos destinados à Assembléia ou ao Senado vão além do que é necessário, o correto seria a devolução ao Executivo (que é o que faz o repasse) para utilização em outras áreas mais carentes. Mesmo porque, não se pode perder de vista uma coisa: o dinheiro que se gasta em qualquer nível da administração, no Executivo, Legislativo ou Judiciário, seja na União, no Estado ou nos municípios, tem todo a mesma origem: é dinheiro de impostos (ou taxas) pagos pelo povo. No caso específico da Assembléia Legislativa do Paraná, vale ressaltar que ontem os deputados decidiram voltar atrás na compra dos importados, optando por uma renovação parcial da frota, mas com carros mais baratos, de fabricação nacional e de preferência do Paraná, o que já é um avanço diante da situação anterior.
Para o eleitor, esse tipo de atitude - a do Legislativo paranaense, em sua primeira decisão ontem reformada, ou a do Senado - constitui uma evidência de falta de sintonia entre os que foram eleitos e o povo, que, conforme o que está escrito na Constituição, é o único e verdadeiro detentor do poder. E esse tipo de descompasso é terrivelmente perigoso para a própria democracia. A ruptura de quase todas as sociedades em relação aos regimes monárquicos tem, entre outras, a base da percepção segundo a qual todos os seres humanos são iguais e de que a idéia da aristocracia, com reis ‘escolhidos por Deus’, com nobres que se situam acima de todos, é racionalmente inaceitável. A República traz em si a idéia da igualdade, que também está contida explicitamente na Constituição. ‘‘Todos são iguais perante a lei’’, é o que diz o texto fundamental da democracia representativa. Os que são eleitos detêm um poder temporário, mas não são melhores que os que os elegeram.
Lamentavelmente, o que acontece é o oposto. Estamos vendo chefes de Executivo querendo se perpetuar no poder, por meio da reeleição. Paralelamente, no Legislativo, o que se vê é político que se coloca acima dos outros, buscando vantagens sem conta, conseguindo, legalmente, os mais absurdos benefícios, que incluem aposentadorias imorais, criando meios e modos de ganhar sempre mais. Há também os que transformam o poder em sinecura, em cabide de empregos para parentes e amigos, sem qualquer pudor diante da pobreza do País, das dificuldades do povo. São atitudes que não apenas denigrem, mas ameaçam a democracia. O cada vez mais elevado índice de votos brancos e nulos é bem indicativo desta descrença na classe política. Na verdade, não votar ou anular o voto não é a resposta. Mas diante da insensibilidade, do abuso, da falta de compostura de muitos políticos, é difícil saber qual pode ser o meio para mudar esse quadro e restaurar a democracia nos seus termos mais elevados.

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