Editorial - O legado de um rei
O rei Hussein, da Jordânia, foi declarado ontem clinicamente morto. O lento e doloroso ocaso do mais antigo governante árabe está, portanto, chegando ao fim. Vítima de câncer, o qual vinha tratando há mais de seis anos, Hussein desaparece de cena justamente no momento em que o Oriente Médio, eternamente conturbado, é mais uma vez foco de várias tensões. O tratado de paz entre judeus e palestinos está estagnado desde a ascensão de Benjamin Netanyahu ao posto de primeiro-ministro de Israel e as contínuas escaramuças entre os Estados Unidos e sua sócia, a Grã-Bretanha, contra o Iraque de Saddam Hussein podem, a qualquer momento, adquirir novamente proporções de guerra ampla com consequências devastadoras.
O mundo árabe perde, com Hussein, não só um líder, carismático e pragmático, mas um dos principais articuladores da sonhada - e sempre remota - paz nessa região tão conflituosa. A Jordânia é um país de dimensões reduzidas, sua população é uma das mais pobres do Oriente Médio, seu Exército é um dos menos equipados de toda a região, mas Hussein fez desse pequeno e frágil reino uma peça importante no complicado jogo de xadrez das relações interárabes e árabes-judias.
Hussein, de fato, protagonizou ações de dimensões históricas, enfrentou rebeliões, sobreviveu a atentados e conspirações e teve a coragem, que por pouco não lhe custou a vida, de expulsar os guerrilheiros palestinos em 1970, episódio tristemente célebre que passou a ser conhecido por Setembro Negro. A ação da Fatah, o mais atuante grupo guerrilheiro da Organização de Libertação da Palestina e então comandado por Yasser Arafat (hoje um pombo da paz), ameaçava a segurança do reino jordaniano - e isso Hussein não podia suportar.
Os conflitos de Hussein com os palestinos foram superados. Seu reino hoje mantém relações amistosas tanto com a Autoridade Palestina, que tem a missão de administrar os territórios palestinos incrustados em Israel, quanto com o governo israelense. E essas relações com o vizinho são baseadas em acordo de paz assinado em 1994, por meio do qual Hussein seguiu os passos do egípcio Anuar Sadat, pioneiro entre os líderes árabes a ousar um relacionamento cordial com Israel. Mas Hussein legará a seu filho e herdeiro Abdullah - recém-indicado para o cargo pelo pai, em seu fulgurante e dramático retorno a Amã no mês passado, viagem que marcou sua despedida de seu país, de seu povo e da vida - a tarefa de consolidar essas relações amistosas e, ao mesmo tempo, preservar outro flanco, com o Iraque.
De fato, as relações da Jordânia com este poderoso país, também seu vizinho, nunca mais foram as mesmas desde a Guerra do Golfo, em 1991. Naquela época, acusou-se o rei Hussein de não tomar uma posição firme diante do Iraque, embora seu governo tivesse repudiado a invasão do Kuwait. Mas o rei tinha as mãos atadas: não podia aliar-se ao poderoso exército multinacional que combateu Saddam porque a economia de seu país dependia - e ainda depende - em grande parte do comércio com o Iraque. Mas a Jordânia também não se aliou aos iraquianos, como era desejo de Saddam, para não romper relações históricas de seu governo com o mundo ocidental.
O pragmatismo, que muitas vezes se confunde com dubiedade, é uma exigência da diplomacia. E o talento para esta arte Hussein desenvolveu ao longo de seu longo reinado, iniciado em 1952, quando ele tinha apenas 17 anos. Com a saída de cena de Hussein, a Nação árabe - conflituosa, sim, mas rica em cultura e em tradições milenares - perde um de seus maiores expoentes deste século. O legado de Hussein o torna digno de colocá-lo entre os homens que contribuíram decisivamente para o desenvolvimento da Nação árabe, galeria que inclui Abdel Nasser e Anuar Sadat.





