Editorial - O legado de Tiradentes
A Inconfidência Mineira não foi o único dos movimentos surgidos no Brasil para lutar pela libertação do domínio português. Antes, e depois, outros movimentos foram tentados, todos sem maior força ou profundidade e a maioria com resultados iguais aos da Inconfidência: prisão e morte para os envolvidos. A Metrópole temia tanto os movimentos de independência de sua colônia que considerava crime hediondo qualquer tentativa dos súditos brasileiros que fosse contra os interesses da corte.
O crime era punido com a morte. Por isso, os inconfidentes faziam parte de uma espécie de sociedade secreta por eles criada para discutir não só a questão da independência, mas outros temas que interessavam aos intelectuais da época, inspirados nos livres pensadores que agitavam os meios culturais das principais cidades européias do século 18.
A execução de Joaquim José da Silva Xavier, o degredo de outros e os anátemas lançados sobre todos foram os meios usados tanto para punir os sediciosos como para desestimular que outros tentassem a mesma coisa. O livre pensar era proibido por todas as cortes.
A História do Brasil é tão rica em fatos inusitados que, ao invés de Tiradentes e outros lutadores da liberdade, homenageamos como nosso grande libertador um herdeiro da Coroa que fez a independência por decreto. São coisas da nossa História. Mas não se pode dizer que entre 21 de abril de 1792 e 7 de setembro de 1822 - um lapso de 30 anos - ninguém tenha querido lutar pela liberdade da colônia. A Inconfidência foi uma semente que deu muitos frutos, a ponto de o próprio futuro rei do Brasil tornar-se um defensor da Independência.
Hoje, a memória de Tiradentes é exaltada com justiça, embora vivamos num país de memória curta e de pouco reconhecimento pelo passado. Esquecemo-nos rapidamente de que o passado foi o presente de ontem e que, naqueles tempos, não foi nada fácil enfrentar o domínio de uma das nações mais poderosas do mundo. Portugal, se já não estava mais no seu auge em 1792, ainda não tinha sido humilhada pelas tropas napoleônicas. Já estava descendo a curva do tempo, mas seu poder ainda era forte e as colônias eram mantidas a ferro e fogo.
Tiradentes era uma pessoa comum, como a imensa maioria dos brasileiros, mas tinha certa notoriedade porque era dentista. Naqueles tempos, tratar dos dentes ou extraí-los era coisa quase do outro mundo, e um especialista em fazer isto sem matar o cliente de dor tinha todos os motivos para ser admirado - por respeito ou por temor. Muito pouco se sabe dele, pois os portugueses, por óbvias razões, apagaram todos os vestígios de sua passagem pela vida.
Hoje, a luta de Tiradentes não faz uso de armas, não faz reuniões secretas, não teme a morte nem a polícia. Hoje, a luta de Tiradentes se faz pelo exercício da cidadania, que se realiza a todo o momento e só precisa da consciência e da maturidade de cada um para defender seus direitos e respeitar os direitos dos outros. E faz-se, especialmente, pela participação na vida pública, com o voto, a filiação político-partidária, o compromisso de trabalhar pelo bem comum.
A democracia que temos hoje, fruto de lutas como a de Tiradentes, não é presente de ninguém, mas conquista do povo e do martírio de muitos. Todos temos a obrigação, neste dia de homenagens, de preservar a liberdade pela qual outros lutaram. E a forma de fazer isto é a participação consciente no processo político, pelo informação, pelo voto, pela cobrança.
O desinteresse pelas eleições, que tem aumentado o índice de votos nulos e brancos, é um modo de sabotar as instituições e de ajudar, de novo, os mesmos interesses daqueles que enforcaram Tiradentes, isto é, daqueles que querem manter o Brasil na ignorância e na escravidão social e econômica. Lembrar Tiradentes é lembrar que o povo não quer a opressão, mas a liberdade, não quer migalhas, mas a prosperidade, e não quer a submissão, mas o trabalho, o emprego e dignidade.





