Em contraposição à bestialidade que se deflagrou sobre a Iugoslávia, a decisão do ministro britânico do Interior, Jack Straw, que autorizou (de novo) o estudo, pelos tribunais britânicos, do pedido de extradição do ex-general Augusto Pinochet - enviado em novembro do ano passado à Grã-Bretanha, pelo juiz espanhol Baltazar Garzón -, abre uma porta de esperança. O homem, capaz de atitudes inconcebíveis, como o bombardeio de cidades, ou da limpeza étnica, o genocídio, também revela seu lado mais elevado ao tornar possível o julgamento de um ex-ditador por alguns de seus crimes.
O bombardeio que a Otan, juntamente com os Estados Unidos, realiza há mais de três semanas contra a Iugoslávia, ao lado das denúncias de genocídio que a este país vem cometendo contra os albaneses de Kosovo, são fatos que parecem dissociados do julgamento de um provecto ex-ditador que está, certamente, nos últimos anos de vida - e que parece mais estar pronto a prestar contas de seus atos ao Criador. Há, porém, uma ligação. O que Pinochet fez, quando ditador do Chile, é tão abusivo quanto os atos de guerra da Otan ou as atrocidades dos sérvios contra os kosovares. E o fato de que talvez se possa ver um ex-ditador sanguinário sentado no banco dos réus, respondendo à humanidade pelos crimes cometidos contra a dignidade de milhares de pessoas, restaura a esperança na elevação do homem diante de crimes bárbaros, independentemente de quem os tenha cometido.
A história da humanidade está recheada de tiranos sanguinários e cheia de tragédias bárbaras. A América, que é hoje, sem dúvida, o continente mais civilizado nestes termos, foi palco, na época da chamada descoberta, de alguns dos crimes mais hediondos que a humanidade registra, contra os habitantes originais da terra. Desapareceram as civilizações asteca, maia, inca, muitos povos indígenas dos EUA, do Brasil e de outros países, mortos ou submetidos a uma situação de inferioridade em face dos descobridores. E os que promoveram isso são lembrados como heróis, casos de Cortez, Pizarro, general Custer, nossos bandeirantes e tantos outros.
Na África, na Ásia, na Europa houve registros semelhantes, com o ápice de tudo sendo atingido nos anos 30 e 40, quando milhões de seres humanos foram mortos, tanto pelos nazistas quanto pelos fascistas. Mas só alguns chefes nazistas, em um episódio inédito, foram levados a julgamento, em Nuremberg. Foi a primeira vez, nesta sangrenta história, que se tentou punir alguém por crimes contra a humanidade. Entretanto, persistiu a impunidade para os vencedores, assim como se manteve uma situação similar para ditadores que continuaram a infestar o mundo nestes últimos 50 anos.
O ex-general Augusto Pinochet pode vir a ser o primeiro desses ex-ditadores a ser levado a julgamento pelos crimes que cometeu (ou permitiu) ao longo do período em que dominou o Chile. Alguns podem perguntar o tradicional ‘por que só ele? De fato, muitos outros, até piores que Pinochet, escaparam impunes. Alguns, como o ex-ditador Alfredo Stroessner, do Paraguai, hoje em Brasília, gozam de um tranquilo exílio, livres de qualquer julgamento. O justo seria, sem dúvida, responsabilizar cada um, inclusive os ex-ditadores brasileiros. Como, porém, até agora, todos eles pareciam inalcançáveis pela lei, é auspicioso o fato de se antever a possibilidade de o sr. Augusto Pinochet ser levado às barras de um tribunal para responder por seus abusos criminosos. Abre uma porta. A esperança é que Pinochet realmente receba uma punição. Quem sabe, depois disso, outros criminosos que usam o poder de modo abusivo sigam este caminho. Seria bom ver Milosevic, Saddam Hussein, Bill Clinton, Tony Blair e tantos outros no banco dos réus.

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