Faltou pouco para que o mundo fosse testemunha de mais um ataque contra o Iraque, no bojo da mais recente crise deflagrada naquele estratégico pedaço de planeta. Quando os norte-americanos já haviam deslocado força suficiente para o bombardeio, garantindo que não havia motivos para mudar sua postura, o Iraque conseguiu novamente escapar pelo simples expediente de voltar atrás. Afinal, toda a crise surgiu porque o governo iraquiano resolveu suspender as inspeções que a ONU realiza desde o final da Guerra do Golfo, e que fazem parte do castigo imposto ao regime de Saddam Hussein por ter invadido o Kuwait e obrigado parte do mundo a uma ação militar destinada a expulsar os iraquianos do vizinho país.
O Iraque, pós-guerra do Golfo, parece um pouco a Alemanha pós-Primeira Guerra, submetido a sanções e a obrigações que são consideradas uma espécie de defesa mundial contra a ameaça daquele país. Afinal, não apenas Saddam Hussein, o líder iraquiano, sonha há tempos com a tecnologia capaz de produzir armas nucleares, como também parece apreciar muito o uso de armas químicas, quase tão terríveis para as vítimas quanto as bombas atômicas. Assim, além das sanções, o mundo, através da ONU, continua a inspecionar o Iraque. E como o governo de Bagdá resolveu dar um basta, exigindo pelo menos o fim das sanções econômicas, que pesam muito, e usando a proibição das inspeções como meio de pressão, veio a resposta e a ameaça de novo ataque. O Iraque recua, tudo parece voltar ao que era antes e aquela parcela do mundo menos estúpida, a que não quer guerras, respira aliviada.
Ocorre que não houve solução alguma para a questão. O Iraque recuou, os Estados Unidos não bombardearam, mas as sanções continuam, crianças morrem, gente passa fome. Sem dúvida, a tirania do sr. Saddam Hussein é terrível, muitos o consideram um monstro, igual a outros que esta Terra já teve, como Hitler, Stalin, Pinochet. Mas esta não é a questão fundamental. Naturalmente, quando houve a reação contra a invasão pelo Iraque ao Kuwait, esta medida teve apoio, até porque poderia sinalizar para uma ação mundial em defesa dos povos mais fracos, com o mesmo direito à autodeterminação que os outros. O governo Saddam Hussein afrontou o mundo ao invadir um país membro da ONU. Foi punido, expulso do Kuwait. Até quando vai continuar a ser alvo da pressão externa?
A impressão é a de que as sanções só cessarão quando o líder iraquiano for apeado do poder. Washington já lançou esta idéia que foi sofregamente apoiada pelos britânicos. Entretanto, até que ponto é aceitável que uma nação, mesmo que os Estados Unidos, a superpotência que restou, determine quem deve dirigir este ou aquele país? Não se pode esquecer que foi o apoio norte-americano que possibilitou, entre outras coisas, os golpes militares no Brasil e no Chile. Hoje, ponderável parcela da humanidade quer punir o ex-ditador Pinochet, o que parece certo, mas não se comenta o papel da grande democracia que existe ao norte do Rio Grande e que foi a verdadeira avalista do golpe no Chile, como em tantos outros países.
Em tese, quem validou a guerra do Golfo, para preservar o Kuwait, foi a Organização das Nações Unidas. Também é a ONU, isto é, são todos os países do mundo que têm assento ali, a responsável pelas sanções, por sua suspensão, pela vigilância visando evitar que o Iraque produza armas químicas ou atômicas. Deveria, assim, incumbir à ONU, em nome dos seus membros, amenizar as sanções e reintroduzir o Iraque ao concerto mundial, sem ingerências. Qualquer outra coisa é a continuação do indesejado papel que os EUA se arrogaram de tutores do mundo.

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