Editorial - O grande problema
De tudo o que o presidente Fernando Henrique Cardoso falou segunda-feira, no pronunciamento em cadeia nacional, o mais importante foi a revelação da importância que o governo dá à luta pela criação de empregos. Na verdade, o presidente colocou em primeiro lugar a estabilização, o que é de fato vital, mas é fundamental perceber que tudo o que se faça em um governo precisa levar em conta as necessidades do povo. A estabilidade é importante, o brasileiro já percebeu como é bom viver em uma economia de moeda firme. Ademais, não se pode esquecer que em função da tremenda mudança que se processou no país, com o fim da inflação exacerbada, uma ampla faixa de brasileiros saiu da miséria total em que vivia, melhorando um pouco suas condições. Todavia, ainda há muitos milhões em situações sub-humanas, reclamando um resgate efetivo. Mesmo a parcela que melhorou está sentindo hoje os efeitos da recessão e das dificuldades atuais, apesar da estabilidade.
Tem razão, sem dúvida, FHC quando diz que tudo seria pior hoje se além das dificuldades que enfrentamos a inflação estivesse em alta, como no passado. Há que se considerar, porém, que é preciso buscar o melhor e não o menos ruim. E é imperioso também observar que uma das causas de a inflação não ter voltado a todo vapor, como resultado da desvalorização do real, em janeiro, foi a precária situação de boa parte da população. É justo afirmar que o grande responsável pela inflação não ter retomado sua força foi o povo, o consumidor, que resolveu dizer não compro diante da especulação, do abuso e até das altas que poderiam ser justificadas. O problema é que muitos não compraram porque estão em condições difíceis ou por falta de emprego ou porque os salários, sem reajuste, não acompanham as altas de preços. Muitos do que não compram começam a dizer não como, por falta de condições reais para atender às necessidades mínimas pessoais e familiares.
Este é o problema e a solução é um esforço pleno no sentido de alterar a equação. O presidente anunciou um grande programa de habitação popular, que sem dúvida é valioso porque trata de duas questões, a da moradia e a do trabalho. E a construção civil, que está enfrentando dificuldades, como tantos outros setores, constitui um caminho efetivo para a criação rápida de empregos. FHC também comentou os programas de qualificação profissional que propiciam melhores condições para quem procura emprego, citando ainda o aumento na produção agrícola e o crescimento das exportações, fatos que igualmente servem para aumentar a oferta de trabalho. Só faltou neste pronunciamento, que teve como de costume a natural preocupação do presidente com as reformas estruturais, o anúncio de medidas mais concretas no sentido de se estimular a criação de empregos e os investimentos produtivos.
Fernando Henrique Cardoso não falou, principalmente, na mudança há muito tempo reclamada da legislação trabalhista, que continua a ser um entrave não só para programas de geração de empregos, mas também para uma política de salários. Com efeito, embora se perceba junto ao empresariado a percepção de que é bom e interessante pagar melhor ao trabalhador, até porque com isto ele poderá consumir mais, sabe-se que a atual legislação inibe uma eventual política de aumentos salariais, devido aos encargos incidentes sobre a folha de pagamentos. Continua a faltar coragem para se enfrentar este desafio, mudando uma legislação que dificulta - e em muitos casos torna quase impossível - a criação de mais postos de trabalho. Para um governo que se mostra, como enfatizou o presidente, disposto a assumir medidas que possam ser impopulares, enfrentar os embaraços da legislação trabalhista não deveria ser difícil.





