Normalmente, nesta época do ano as maiores preocupações se dirigem à questão das compras, ficando todos os demais assuntos em plano secundário. É quase sempre uma fase de muita atividade, o índice de desemprego cai e as previsões pessimistas, quando existem, dizem respeito ao que pode vir a ocorrer na virada do ano. Neste final de 97, porém, as coisas estão diferentes. As dificuldades que se sucederam ao pacote de novembro reduziram as perspectivas favoráveis, de tal modo que é menor o total de empregos temporários oferecidos. Surgem inesperadas negociações envolvendo alguns segmentos produtivos, como o metalúrgico. E, ao contrário do que tem acontecido quando se analisa a questão trabalhista, não é o vencimento que está no centro das preocupações, mas o emprego em si. Com isso, ao invés de aumentos negociam-se até reduções nos valores dos salários.
Esta nova situação deixa claro que se está diante de verdadeira e complicada mudança na situação da vida e nas relações que regem a atividade em geral. Os desafios que se colocam diante dos seres humanos para a manutenção da estrutura social criada ao longo dos séculos se mostram maiores que há algum tempo, reclamando posicionamento diferente, inovador, criativo, a fim de se encontrar o reequilíbrio das coisas. Dizer que isto é decorrente de um fenômeno que vem com o final do século talvez seja inexato, até porque só a civilização cristã está vivendo a etapa do fim de um milênio. Outros calendários, que coexistem na Terra, apresentam datas diferentes. O que está mudando a realidade, portanto, não é a fase de um calendário, mas a alteração profunda que a nova tecnologia e os avanços da informática e de todos os outros fatores de desenvolvimento trouxeram para o mundo.
O mundo está entrando em nova fase e o Brasil, introduzindo-se na globalização, enfrenta o desafio de adaptar-se rapidamente, com o compromisso de encontrar caminhos para garantir melhores condições de vida para seu povo. Nos últimos anos, em função dos bons efeitos da estabilização da economia, apreciável contingente de brasileiros, que vivia na marginalidade, conseguiu melhorar de vida. Mas ainda há número elevado padecendo em condições precárias. E a falta de iniciativas concretas e criativas para garantir a crescente fatia da população meios para garantir a própria subsistência neste contexto é um problema a exigir ação e resposta. Não se trata, apenas, de criticar a globalização, de considerar que a concorrência desleal externa prejudica o cidadão brasileiro, mas de buscar alternativas para um tempo que exige, mais do que a preparação técnica, uma visão abrangente sobre o mundo.
O desafio brasileiro - e aparentemente mundial -, é o de se criar uma readequação para a atividade humana num novo contexto. As idéias antigas sobre o modelo capaz de gerar empregos em número suficiente para atender às necessidades do mercado precisam ser substituídas por novas opções, sob pena de as dificuldades ser cada vez maiores para a população. Trata-se de realizar trabalho de adequação às novas situações e desafios de um mundo em profunda mutação, que exige até mesmo nova forma de abordagem dos problemas da própria sobrevivência. O grande desafio que se antecipa para o futuro, próximo ou distante, é o de se ter criatividade e capacidade para resolver as dificuldades de modo diferente. As mudanças cada vez mais rápidas que a vida vem oferecendo exigem um modo mais aberto para não se perder o ritmo da era nova em que o mundo vai ingressar.

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