Editorial - O grande desafio
Na entrevista que concedeu a este jornal na terça-feira, a propósito da prisão de um grupo de traficantes, em Londrina, flagrados com 300 quilos de cocaína, o delegado federal José Roberto Morel colocou em evidência a grande dificuldade que as autoridades têm em relação ao tráfico: faltam meios para que a polícia enfrente os marginais em condições de igualdade. É uma situação que há muito tempo vem sendo enfocada mas que, apesar de tudo, continua a não ser devidamente resolvida pelos principais responsáveis.
Diante de todas as dificuldades existentes, da falta de meios, da imensa gama de facilidades posta à disposição dos traficantes (e nunca se deve esquecer que o tráfico movimenta hoje, no mundo, alguns bilhões de dólares por ano), os sucessos da Polícia Federal, como este conseguido em Londrina, são ainda mais marcantes. É necessária, sem dúvida, uma imensa disposição, uma consciência firme sobre a missão da polícia, para superar obstáculos e enfrentar o poder de fogo do crime organizado. Entretanto, é fora de dúvida que é preciso muito mais para se conseguir enfrentar de modo efetivo o tráfico e todo o crime organizado.
Isto, porém, não depende apenas de organismos locais, das delegacias da Polícia Federal desta ou daquela região. O desafio, importa repetir sempre, é mundial e envolve uma disposição global no sentido de se aparelhar bem os organismos do país e do mundo para que enfrentem em melhores condições o tráfico. É preciso, inclusive, que haja um trabalho comum na legislação mundial para permitir que a polícia possa, na luta contra o tráfico, ter mais facilidades em sua movimentação. Não se trata de reclamar para o policial algum tipo de imunidade ou de considerar que determinados crimes deveriam ser tratados sem limitações por parte da autoridade. A sociedade civilizada não pode sequer pensar em termos de policiais com autoridade para matar ou sequer para infringir de qualquer modo a lei. O que se reclama é que haja uma legislação mundial mais consistente com a realidade, capaz de permitir que o policial tenha condições melhores em seu trabalho.
Há, ademais, a necessidade de um trabalho interno, de uma disposição firme no sentido de garantir à Polícia Federal melhores condições para realizar seu importante e perigoso trabalho. Vale repetir a observação relativa ao fato de que na questão da segurança o cidadão comum depende só dos organismos oficiais. Isto se aplica tanto ao aspecto da polícia civil e militar, que respondem pela segurança em cada Estado, como, e talvez principalmente, à polícia federal, que tem uma missão ainda mais dura, enfrentando o tráfico e o crime organizado. Não se pode argumentar com falta de recursos para não dar ao policial federal as condições para enfrentar o criminoso em condições mais adequadas.
Não só no Brasil, mas no mundo, a civilização está sob ameaça. O poder do crime em escala mundial é tremendo. Além da imensa quantidade de dinheiro que movimenta, e que garante condições para corromper os organismos responsáveis pela luta contra ele, inclusive o Judiciário, o crime organizado usa também a violência, sem qualquer preocupação ética ou moral. Superar estes obstáculos chega a ser tarefa sobre-humana. Todavia, não há como fugir a ela. O crescimento da consciência da sociedade diante disto é importante. Até mesmo a Organização das Nações Unidas tem se mobilizado, aprofundando análise sobre o assunto e buscando meios para uma ação comum visando combater o tráfico de modo contundente e eficaz. Este é o caminho. Assim como o crime não tem fronteiras, também a ação preventiva e principalmente repressiva tem de ser global, abrangente, único modo de a sociedade civilizada enfrentar este imenso desafio.





